Flausino José da Gama - o autor do primeiro dicionário de sinais do Brasil
Flausino José da Gama. Ilustracao melhorada do sinal de "Galo", do primeiro dicionario brasileiro de lingua de sinais. Autor: Flausino Jose da Costa Gama (1875)Flausino José da Costa Gama foi um aluno surdo do Imperial Instituto dos Surdos-Mudos do Rio de Janeiro (o atual INES) que, em 1875, publicou a "Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos": o primeiro dicionário de língua de sinais do Brasil. Com apenas essa obra, o jovem litógrafo garantiu um lugar de fundador na história da Libras, colocando em circulação, pela primeira vez em português, um repertório visual de sinais para a comunidade surda brasileira do século XIX.
Os dados biográficos de Flausino são escassos, como acontece com muitos personagens surdos do século XIX: não se conhecem com precisão as datas de nascimento e morte. O que os documentos do Instituto registram é sua trajetória exemplar como aluno e, depois, como "repetidor", uma função de auxiliar de ensino que apoiava os professores nas classes, exercida no período em que o Instituto era dirigido pelo Dr. Tobias Leite.
A Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos
Publicada em 1875 pela Typographia Universal dos irmãos Laemmert, no Rio de Janeiro, a Iconographia é um dicionário visual produzido em litografia: uma técnica de impressão em que as imagens são gravadas em pedra. O próprio Flausino litografou as pranchas da obra, que reúnem 382 sinais organizados por temas, além do alfabeto manual (a datilologia).
O valor histórico do trabalho é imenso. Estudos acadêmicos o consideram o marco fundador da iconografia da língua de sinais brasileira: a primeira vez que os sinais usados pelos surdos no Brasil foram registrados, organizados e publicados para orientar a comunicação e o ensino. Pesquisadoras da área destacam que os elementos visuais e lexicais da Iconographia servem de referência para dicionários de Libras até hoje.
A pesquisa histórica revelou, porém, um detalhe importante: as pranchas de Flausino não foram desenhadas do zero. Estudo publicado na Revista Brasileira de Educação Especial mostra que a Iconographia reproduz as estampas da obra do francês Pierre Pélissier, ele próprio um professor surdo, publicada na França em 1856. Flausino litografou as imagens francesas, acrescentou textos explicativos em português após cada estampa e escreveu um prefácio. Ou seja: mais do que criador, ele foi o tradutor e divulgador que colocou nas mãos dos surdos brasileiros a iconografia de um surdo francês, no mesmo fluxo França-Brasil que trouxe Huet e a LSF. Para as pesquisadoras, isso não diminui seu papel: ele segue sendo o surdo que teve "importante papel na propagação da língua brasileira de sinais".
Por que um aluno, e não um professor?
Há algo de simbólico no fato de o primeiro dicionário de sinais do Brasil ter saído das mãos de um aluno surdo, e não de um professor ouvinte. O Imperial Instituto, fundado pelo professor surdo francês Eduard Huet em 1856/1857, ensinava em língua de sinais, e os alunos que vinham de várias províncias espalhavam essa língua pelo país ao voltarem para casa. Flausino, formado dentro dessa comunidade linguística, era um usuário nativo da língua de sinais: ninguém melhor do que ele para escolher, traduzir e divulgar um repertório de sinais entre os surdos brasileiros.
A função de repetidor que ele exerceu também diz muito: alunos surdos experientes ajudavam a ensinar os mais novos, num modelo em que pessoas surdas eram protagonistas da própria educação, algo que a comunidade surda voltaria a reivindicar com força mais de um século depois.
O legado de Flausino para a Libras
A Iconographia de Flausino da Gama é o elo documental entre a língua de sinais praticada no Instituto imperial e a Libras contemporânea, reconhecida como meio legal de comunicação pela Lei nº 10.436, de 2002. Quando um dicionário de Libras moderno organiza sinais por imagens e campos temáticos, ele repete o gesto inaugural daquele aluno litógrafo de 1875.
Exemplares da obra sobrevivem em acervos históricos, e o trabalho de Flausino segue sendo objeto de pesquisas acadêmicas sobre a história da educação de surdos no Brasil. Para a comunidade surda brasileira, seu nome representa o início do registro escrito da própria língua, feito por uma mão surda.