Eduard Huet - o professor surdo que deu origem à Libras
Eduard Huet (E. Huet, como sempre assinava) foi um professor surdo francês que mudou a história de dois países: fundou no Rio de Janeiro, com apoio de D. Pedro II, a primeira escola de surdos do Brasil (o atual INES, Instituto Nacional de Educação de Surdos) e, anos depois, fundou também a primeira escola de surdos do México. A língua de sinais francesa que ele trouxe na bagagem, misturada aos sinais já usados pelos surdos brasileiros, deu origem ao que hoje conhecemos como Libras, a Língua Brasileira de Sinais.
Huet nasceu em Paris, por volta de 1820 ou 1822 (os registros divergem), em uma família da nobreza francesa. Até o primeiro nome dele é objeto de controvérsia entre os historiadores: alguns documentos registram "Ernest", outros "Edouard", e a assinatura "E. Huet" não resolve a dúvida. Sobre a surdez, pessoas que o conheceram afirmavam que ele era surdo de nascença, enquanto relatos de família dizem que perdeu a audição na puberdade, em decorrência do sarampo.
Formação em Paris e a escola de Bourges
Huet estudou no Instituto dos Surdos-Mudos de Paris, a escola fundada na tradição do abade L'Épée, berço da educação de surdos no mundo. Documentos de 1840 o registram como monitor da terceira classe do Instituto, participando de uma campanha para erguer um monumento em homenagem a L'Épée. Poliglota, dominava o francês, o alemão, o espanhol e o português, comunicando-se preferencialmente pela escrita e pela língua de sinais. Antes de emigrar, dirigiu uma escola para surdos em Bourges, na França.
O Brasil, D. Pedro II e a fundação do INES
A pesquisa no acervo histórico do INES revelou um dado curioso: antes da escola de surdos, Huet já havia mantido um "Collégio Francez" para meninos no Rio de Janeiro, entre 1845 e 1851, na Rua da Ajuda. Em 1855, ele enviou um relatório ao imperador D. Pedro II propondo a criação de um colégio para surdos no Brasil, apresentando sua experiência como diretor da instituição de Bourges.
Com o apoio do Império, Huet fundou em 1856 o Collégio Nacional para Surdos-Mudos, que começou a funcionar na Rua dos Beneditinos, nº 8, no centro do Rio. A data oficial de fundação do Imperial Instituto dos Surdos-Mudos é 26 de setembro de 1857, quando a instituição foi consolidada por lei imperial. É por causa dessa data que o dia 26 de setembro se tornou o Dia Nacional dos Surdos, instituído oficialmente pela Lei nº 11.796, de 2008.
O instituto de Huet foi o embrião da Libras. Alunos surdos de várias províncias do Brasil estudavam no Rio e, ao voltarem para suas terras, espalhavam a língua de sinais praticada na escola, nascida do encontro entre a língua de sinais francesa (LSF) trazida por Huet e os sinais já usados pelas comunidades surdas locais. Por isso a Libras é considerada, até hoje, uma língua da família da LSF.
O México e a segunda escola nacional
Huet deixou a direção do instituto brasileiro e, em 1866, chegou ao México, onde repetiria o feito. Sua primeira turma foi aberta com recursos próprios e, após o sucesso dos alunos em exames públicos, veio o apoio do governo: em 14 de fevereiro de 1867 foi fundada a Escuela Municipal de Sordomudos que, em 28 de novembro do mesmo ano, já sob o governo de Benito Juárez, tornou-se a Escuela Nacional de Sordomudos. A data é celebrada até hoje como o Dia do Surdo no México, e a língua de sinais mexicana (LSM) também carrega a herança francesa de Huet.
Huet morreu na Cidade do México, em janeiro de 1882, enquanto preparava um dicionário de língua de sinais para uma conferência internacional de educação. Um professor surdo, formado na tradição de L'Épée, que plantou escolas nacionais de surdos em dois continentes: poucas biografias dizem tanto sobre o poder transformador da educação em língua de sinais.
Por que Huet importa para a comunidade surda brasileira
Toda pessoa que usa Libras hoje é, de alguma forma, herdeira de Eduard Huet. O INES, que ele fundou, segue ativo no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, como órgão federal de referência nacional na educação de surdos. E a data da sua escola virou a data da comunidade: o 26 de setembro, Dia Nacional dos Surdos, é o momento de celebrar a história, a cultura e a língua da comunidade surda brasileira, uma história que começou com um professor surdo e sua coragem de atravessar o oceano.
