Laurent Clerc - o professor surdo que levou a língua de sinais à América
Laurent Clerc foi um educador surdo francês, cofundador da primeira escola de surdos dos Estados Unidos e figura central na origem da língua de sinais americana (ASL). Chamado de "o Apóstolo dos Surdos na América", Clerc fez pela educação de surdos na América do Norte o que Eduard Huet faria décadas depois no Brasil e no México: atravessou o oceano levando na bagagem a língua de sinais francesa e um modelo de escola em que pessoas surdas ensinavam pessoas surdas.
Louis Laurent Marie Clerc nasceu em 26 de dezembro de 1785, em La Balme, um vilarejo no sudeste da França, filho do prefeito local. Com cerca de um ano de idade, caiu de uma cadeira junto à lareira e queimou gravemente o rosto: a família sempre acreditou que a queda causou sua surdez (há indícios de que ele pudesse ser surdo de nascença). A cicatriz na bochecha direita inspirou seu sinal pessoal, dois dedos deslizando pela face, usado pela comunidade surda até hoje.
Do Instituto de Paris para o mundo
Aos 12 anos, em 1797, Clerc entrou na Institution Nationale des Sourds-Muets de Paris, a escola fundada na tradição do abade L'Épée. Seu primeiro professor foi Jean Massieu, ele próprio surdo, que se tornou seu mentor e amigo para a vida inteira. Aluno brilhante, Clerc virou auxiliar de ensino em 1805 e, em 1806, aos 21 anos, foi contratado como professor do Instituto.
Em 1815, Clerc viajou a Londres com o diretor Sicard e com Massieu para demonstrações públicas do método francês. Na plateia estava um jovem pastor americano, Thomas Hopkins Gallaudet, que percorria a Europa em busca de um método para educar crianças surdas, missão inspirada por Alice Cogswell, a filha surda de um médico de Hartford. O encontro mudaria a história da comunidade surda americana.
A travessia e a escola de Hartford
Em 18 de junho de 1816, Clerc embarcou com Gallaudet no navio Mary Augusta rumo aos Estados Unidos. A travessia de 52 dias virou uma sala de aula flutuante: Clerc ensinou a língua de sinais francesa a Gallaudet, e Gallaudet ensinou inglês escrito a Clerc. Em 15 de abril de 1817, os dois abriram em Hartford, Connecticut, a primeira escola permanente para surdos da América do Norte, hoje chamada American School for the Deaf, e Clerc se tornou o primeiro professor surdo dos Estados Unidos.
A escola de Hartford virou modelo: formou professores (muitos deles surdos) que fundaram escolas de surdos por todo o país, espalhando a língua de sinais nascida ali, uma mistura da língua de sinais francesa de Clerc com os sinais já usados pelos alunos americanos. É por isso que a ASL guarda até hoje uma forte herança da língua de sinais francesa, e que a ASL e a Libras, ambas filhas da LSF, sejam línguas aparentadas.
Meio século ensinando
Clerc lecionou na escola de Hartford por mais de 40 anos, aposentando-se apenas em 1858, aos 73 anos. Casou-se em 1819 com Elizabeth Crocker Boardman, uma de suas ex-alunas, com quem teve seis filhos. Morreu em 18 de julho de 1869, aos 84 anos, celebrado como o mais respeitado educador surdo de seu tempo: mais de cinco décadas de vida dedicadas à instrução de pessoas surdas.
O nome de Clerc segue vivo: o centro nacional de educação de surdos da Universidade Gallaudet (a universidade dos surdos, batizada em homenagem ao seu parceiro de travessia) chama-se Laurent Clerc National Deaf Education Center. Para a comunidade surda mundial, Clerc é a prova de que a educação de surdos dá certo quando os surdos estão à frente dela, uma lição que ele ensinou dois séculos atrás, numa travessia de navio de 52 dias.
