William Stokoe - o linguista que provou que língua de sinais é língua
William Stokoe. Por Lynn Johnson, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=36294671William C. Stokoe é o cientista por trás de uma das ideias mais importantes para a comunidade surda mundial: a prova de que as línguas de sinais são línguas completas, com gramática, sintaxe e estrutura próprias, e não mímica ou gestos soltos. Seu estudo "Sign Language Structure", publicado em 1960, fundou a linguística das línguas de sinais e é o alicerce científico de tudo o que veio depois, incluindo o reconhecimento legal da Libras no Brasil, em 2002. Não por acaso, é chamado de "pai da linguística da ASL".
Stokoe nasceu em 1919, nos Estados Unidos, e era ouvinte. Formado em Cornell, chegou em 1955 ao então Gallaudet College, em Washington, contratado como professor e chefe do departamento de Inglês, sem saber sinalizar. Foi observando seus alunos surdos conversando entre si que ele teve a intuição que mudaria a história: aquilo não era um código improvisado, era uma língua. Como ele mesmo resumiu depois: "Eu simplesmente sabia que aquilo com que eles se comunicavam era uma língua", nada de "quebrado" ou "inadequado".
1960: a língua de sinais entra para a ciência
Em 1960, Stokoe publicou "Sign Language Structure", o primeiro estudo a analisar uma língua de sinais com o instrumental da linguística. Sua sacada técnica foi demonstrar que os sinais, assim como as palavras faladas, se decompõem em unidades menores que se combinam: a configuração da mão, a locação (o lugar do corpo onde o sinal é feito) e o movimento. Para registrá-las, criou a "notação Stokoe", o primeiro sistema de escrita científica de sinais, equivalente visual dos fonemas.
Em 1965, com os colaboradores surdos Dorothy Casterline e Carl Croneberg, publicou o "Dictionary of American Sign Language on Linguistic Principles", o primeiro dicionário de uma língua de sinais organizado por estrutura linguística, e não por temas. Qualquer semelhança com a estrutura de parâmetros que os estudantes de Libras aprendem hoje (configuração de mão, ponto de articulação, movimento...) não é coincidência: é herança direta de Stokoe.
A resistência e a vitória
O mundo acadêmico não recebeu bem a novidade. Stokoe enfrentou anos de ceticismo e até deboche dos próprios colegas da Gallaudet, que consideravam impossível haver "língua" nos sinais; seu Laboratório de Pesquisa Linguística chegou a ser fechado em 1984. Ele seguiu firme: em 1972, fundou a revista científica Sign Language Studies, que existe até hoje, e viveu para ver sua tese vencer por completo.
A vitória de Stokoe transbordou a linguística. Se a língua de sinais é língua, então a comunidade que a fala tem cultura e identidade próprias, e o direito de ser educada nela. Essa cadeia lógica alimentou o orgulho surdo, o movimento Deaf President Now (1988) e as leis de reconhecimento das línguas de sinais mundo afora, incluindo a Lei de Libras brasileira (Lei 10.436/2002). Stokoe morreu em 4 de abril de 2000, celebrado exatamente pela comunidade que um dia duvidou de que um professor ouvinte de inglês pudesse entendê-la tão bem.
Por que Stokoe está nas nossas Biografias
Ouvinte, Stokoe entra nas nossas Biografias como o aliado científico definitivo da comunidade surda. Antes dele, defender a língua de sinais era uma posição pedagógica; depois dele, virou fato científico. Todo pesquisador de Libras nas universidades brasileiras, toda gramática de Libras e todo curso de Letras-Libras trabalham sobre o terreno que Stokoe abriu em 1960.