Troy Kotsur - o primeiro ator surdo a vencer o Oscar
Troy Kotsur. Por Lyn Fairly Media - SBIFF 2022: CODA - TROY KOTSUR, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=116060623Troy Kotsur é um ator e diretor americano, surdo desde bebê, que entrou para a história do cinema em 2022: pelo papel do pescador Frank Rossi no filme "CODA - No Ritmo do Coração", ele se tornou o primeiro homem surdo a vencer um Oscar de atuação, na categoria de melhor ator coadjuvante. Antes dele, apenas uma pessoa surda havia conquistado a estatueta: a atriz Marlee Matlin, em 1987, que décadas depois seria justamente sua colega de elenco em "CODA".
Kotsur nasceu em 24 de julho de 1968, em Mesa, no estado americano do Arizona. Quando ele tinha nove meses de idade, a família descobriu a surdez, e os pais tomaram uma decisão que marcaria sua vida: aprenderam a língua de sinais americana (ASL) para que todos em casa pudessem se comunicar com ele.
Infância, escola e a descoberta do teatro
Troy estudou na Phoenix Day School for the Deaf, escola para surdos onde nasceu seu interesse pela atuação, e concluiu o ensino médio na Westwood High School. Foi lá que uma apresentação de pantomima arrancou aplausos de pé da plateia e confirmou sua vocação para o palco.
Em seguida, ele estudou teatro na Universidade Gallaudet, em Washington, a mais importante universidade do mundo voltada para surdos. Deixou o curso antes de se formar para aceitar um convite profissional: excursionar com o National Theatre of the Deaf, a companhia nacional de teatro de surdos dos Estados Unidos.
Uma vida dedicada ao teatro de surdos
Em 1994, Kotsur se estabeleceu em Los Angeles e passou a integrar o Deaf West Theatre, a principal companhia de teatro surdo do país, onde atuou e dirigiu ao longo de décadas, somando mais de vinte produções. Em 2003, chegou à Broadway com a adaptação em ASL do musical "Big River". Na televisão, participou de séries conhecidas como "Criminal Minds", "Scrubs" e "CSI: New York".
Foi também no teatro de surdos que ele conheceu a atriz surda Deanne Bray, em 1993, durante o período no National Theatre of the Deaf. A amizade virou namoro em 1997, e os dois se casaram em 2001. O casal tem uma filha ouvinte, Kyra, que é musicista: uma família "CODA" na vida real (a sigla, em inglês, significa "filho de adultos surdos").
CODA e a noite histórica do Oscar
Em "CODA - No Ritmo do Coração" (2021), Kotsur interpreta Frank Rossi, um pescador surdo cuja filha ouvinte sonha em cantar. O filme fez história na cerimônia do Oscar de 2022 ao levar três estatuetas: melhor filme, melhor roteiro adaptado (Siân Heder) e melhor ator coadjuvante para Kotsur. Segundo o comunicado oficial da Apple, distribuidora do longa, "CODA" foi o primeiro filme com elenco predominantemente surdo a vencer o Oscar de melhor filme, e o primeiro de um serviço de streaming a conquistar o prêmio principal.
O discurso de agradecimento, feito inteiramente em língua de sinais, emocionou a plateia, que o aplaudiu agitando as mãos para o alto (o "aplauso surdo"). Kotsur dedicou o prêmio "à comunidade surda, à comunidade CODA e à comunidade de pessoas com deficiência", declarando: "Este é o nosso momento".
No mesmo discurso, ele homenageou o pai, que havia sido chefe de polícia de Mesa: "Meu pai era o melhor sinalizador da nossa família. Mas ele sofreu um acidente de carro e ficou paralisado do pescoço para baixo", contou, lembrando que o pai, seu herói, perdeu a capacidade de sinalizar. A temporada de premiações de "CODA" já vinha histórica: o filme também venceu no SAG Awards (o prêmio do sindicato dos atores), no PGA Awards e no BAFTA.
Representatividade que abre portas
A vitória de Troy Kotsur tem um significado que vai além da carreira dele. Depois de décadas em que atores surdos ficavam restritos a papéis pequenos, "CODA" provou que histórias protagonizadas por surdos, contadas em língua de sinais, podem alcançar o maior prêmio do cinema mundial. Para a comunidade surda, foi a confirmação, diante de bilhões de espectadores, de que a língua de sinais é também uma língua de arte, de emoção e de excelência profissional.
A trajetória de Kotsur, da escola para surdos no Arizona ao palco do Oscar, mostra o poder de uma família que aprendeu a língua do filho, de escolas e universidades pensadas para surdos e de um teatro feito por e para pessoas surdas. Cada etapa dessa história reforça o que a comunidade surda defende há gerações: com acesso à língua de sinais e oportunidades reais, não existe limite para o talento surdo.