Ronice Müller de Quadros - a linguista que criou o Letras-Libras
Ronice Müller de Quadros é uma das linguistas mais influentes da história da Libras. Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ela idealizou o curso Letras-Libras, que formou os primeiros professores de língua de sinais graduados do Brasil, e coordena o Corpus de Libras, o grande acervo digital da língua. Ouvinte, cresceu dentro da comunidade surda: nasceu em uma família com pessoas surdas e é bilíngue, em Libras e português, desde a infância.
Essa dupla condição, de quem tem a Libras como língua da família e o rigor científico como ofício, atravessa toda a sua obra: das pesquisas sobre como crianças adquirem a língua de sinais até as políticas públicas que levaram a Libras para dentro das universidades.
Da sala de aula em Caxias do Sul ao doutorado sobre a Libras
Ronice fez o magistério no Colégio Sévigné, em Porto Alegre, entre 1985 e 1988, e começou a lecionar em 1987. Iniciou Pedagogia na UFRGS em 1989 e concluiu o curso na Universidade de Caxias do Sul, em 1992, período em que foi professora de estudantes surdos na Escola Municipal Helen Keller, em Caxias do Sul. Desde muito cedo, também atuava informalmente como intérprete de Libras.
Na PUCRS, tornou-se mestre em Linguística em 1995 e doutora em 1999, com uma tese escrita em inglês sobre a estrutura sintática da Libras. Durante o doutorado, fez estágio na University of Connecticut, nos Estados Unidos, com a pesquisadora Diane Lillo-Martin, parceria científica que dura até hoje. Passou pela ULBRA em 2000 e, em 2002, chegou à UFSC, onde era então a única docente a atuar nesse campo.
O Letras-Libras: a Libras entra na universidade
O feito mais transformador de Ronice foi o Letras-Libras. O projeto, elaborado por ela, foi aprovado na UFSC em 2005 e começou em 2006 na modalidade a distância, com nove polos pelo país, incluindo USP, INES, UnB, UFBA e UFAM, e centenas de alunos, quase 90% deles surdos, com prioridade garantida pelo Decreto 5.626/2005. Em 2008 abriu-se o bacharelado, voltado à formação de tradutores e intérpretes, e o curso presencial veio na sequência.
A primeira turma de licenciados se formou virando a década, e o modelo se multiplicou: hoje existem dezenas de cursos de Letras-Libras em universidades federais, tendo a UFSC como referência. Ronice também participou do Prolibras, o exame nacional de certificação de proficiência em Libras realizado pela UFSC com o MEC a partir de 2007. Foi uma revolução na profissionalização de professores surdos e de intérpretes no Brasil.
Pesquisa internacional e o Corpus de Libras
Pesquisadora de produtividade nível 1 do CNPq, Ronice fez pós-doutorados na University of Connecticut e na Gallaudet University (2009-2010), estudando o bilinguismo bimodal de crianças com financiamento do NIH, e em Harvard (2015-2016), investigando bilíngues bimodais adultos. Na UFSC, coordena o NALS, núcleo que acumula dados de aquisição de línguas de sinais desde 2002.
Ela lidera ainda o Corpus de Libras, acervo digital público que documenta a língua em uso, alimentado pelo Inventário Nacional de Libras com apoio do CNPq e do IPHAN. É a Libras sendo tratada como aquilo que é: patrimônio linguístico brasileiro, digno de registro e preservação.
Livros que formaram gerações
Sua bibliografia é leitura obrigatória em qualquer curso da área. Educação de Surdos: a Aquisição da Linguagem (ArtMed, 1997) foi seu primeiro livro. Língua de Sinais Brasileira: Estudos Linguísticos (ArtMed, 2004), escrito com Lodenir Karnopp, uniu as teses das duas autoras e já ultrapassou dezenas de milhares de exemplares distribuídos.
Vieram ainda Língua de Herança: Língua Brasileira de Sinais (Penso, 2017), sobre os ouvintes que, como ela, herdam a Libras da família, a organização de Letras Libras: Ontem, Hoje e Amanhã (Editora UFSC), o livro Língua Brasileira de Sinais: Patrimônio Linguístico Brasileiro (2018) e a Gramática da Libras, publicada em volumes a partir de 2021. Poucos pesquisadores no mundo documentaram tão sistematicamente uma língua de sinais, e a comunidade surda brasileira colhe os frutos desse trabalho todos os dias, nas escolas, nas universidades e nas políticas linguísticas do país.
