Pierre Pélissier

Pierre Pélissier - o poeta surdo que criou o primeiro dicionário ilustrado de língua de sinais

Retrato de Pierre PélissierPierre Pélissier. Portrait de Pierre Pelissier a l'age de vingt-sept ans. Author: Peintre inconnu

Pierre Pélissier foi um professor e poeta surdo francês do século 19, autor de um marco na história das línguas de sinais: a "Iconographie des signes" (1856), o primeiro dicionário prático e ilustrado de uma língua de sinais, com desenhos que mostravam como realizar cada sinal. A obra influenciou o mundo inteiro, inclusive o Brasil: foi nela que se baseou Flausino José da Gama para publicar, em 1875, o primeiro dicionário de sinais brasileiro.

Pélissier nasceu em 22 de setembro de 1814, em Gourdon, no sul da França, o mais velho dos doze filhos de uma família de artesãos. Ficou surdo aos 5 anos de idade. Por volta de 1825, foi enviado à escola para surdos de Rodez e depois à de Toulouse, dirigida pelo abade Chazottes, onde recebeu educação em língua de sinais e se revelou tão talentoso que se tornou professor da própria escola, entre 1833 e 1838.

O "bardo silencioso" celebrado pela poesia francesa

Pélissier foi considerado o mais célebre poeta surdo de seu tempo. Em 1837, sua elegia "Mes Regrets" recebeu menção honrosa da Academia dos Jogos Florais de Toulouse, uma das mais tradicionais instituições literárias da França. Publicou o livro "Choix de poésies d'un sourd-muet" ("Seleção de poesias de um surdo-mudo", no vocabulário da época) e conquistou a admiração de Alphonse de Lamartine, gigante do romantismo francês, que o chamou de "bardo silencioso".

Em 1843, Pélissier chegou ao posto mais alto da carreira: professor da Escola Imperial de Surdos-Mudos de Paris, a histórica instituição de Saint-Jacques fundada a partir do trabalho do abade de l'Épée, onde lecionou por vinte anos, até a morte.

A Iconographie des signes: desenhar uma língua

Sua obra máxima veio em 1856: "L'enseignement primaire des sourds-muets mis à la portée de tout le monde, avec une iconographie des signes" ("O ensino primário dos surdos-mudos ao alcance de todos, com uma iconografia dos sinais"). O livro trazia pranchas ilustradas em que cada página de desenhos era acompanhada de explicações de como executar os sinais, tornando-se uma das primeiras representações visuais sistemáticas de uma língua de sinais na história.

As ilustrações de Pélissier são hoje documentos fundamentais para o estudo das origens da língua de sinais francesa (LSF), e seu formato didático fez escola: era possível, pela primeira vez, "consultar" sinais em um livro, como quem consulta palavras em um dicionário.

A ponte com o Brasil e a Libras

O alcance da obra chegou ao Brasil de forma direta. No INES, o Instituto Nacional de Educação de Surdos fundado no Rio de Janeiro em 1857, o aluno surdo Flausino José da Gama produziu em 1875 a "Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos", primeiro dicionário de sinais do Brasil, tendo as pranchas de Pélissier como base e modelo. Ou seja: há um fio direto ligando o professor surdo de Gourdon à documentação pioneira da língua que viria a ser a Libras.

Pélissier morreu em 30 de abril de 1863, aos 48 anos. Sua vida resume o espírito da geração de ouro da educação de surdos francesa: surdos educando surdos, produzindo literatura, arte e ciência em sua própria língua, e deixando registros que atravessaram séculos e oceanos.

Referências e Anexos:

  1. ÉDITIONS DU FOX (2-AS). Pélissier Pierre, poète sourd. Disponível em: <https://2-as.org/editions-du-fox/94-pelissier-pierre>. Acesso em: 14 Jul. 2026
  1. ANEXO: Iconographie des signes faisant partie de l'Enseignement primaire des sourds-muets
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