Pedro Ponce de León - o monge que provou, no século 16, que pessoas surdas podiam aprender
Pedro Ponce de León é o primeiro professor de surdos documentado da história. Monge beneditino do mosteiro de San Salvador de Oña, no norte da Espanha, ele fez no século 16 algo que a ciência da época considerava impossível: educou crianças surdas, ensinando-as a ler, escrever e falar. Antes dele, valia o veredicto atribuído a Aristóteles de que quem não ouve não pode aprender; depois dele, a educação de surdos passou a existir.
Nascido em Sahagún, na região de León, por volta de 1520, em família nobre, Pedro Ponce de León fez seus votos beneditinos em 1526 e passou a vida no mosteiro de Oña, perto de Burgos. Foi ali, dentro dos muros do convento, que a história da educação de surdos começou.
Os irmãos Velasco e a escola no mosteiro
Seus alunos mais célebres foram dois meninos surdos da poderosa família Velasco, aristocratas que estavam sob os cuidados do mosteiro. Havia um motivo muito concreto para educá-los: pela lei da época, um herdeiro que não falasse não podia administrar seus bens nem receber títulos. Sob a instrução de Ponce de León, os jovens aprenderam a escrever e a falar; registros posteriores contam que um deles, mesmo com fala "um tanto desajeitada", argumentava com sutileza que compensava qualquer limitação. Ao todo, o monge teria ensinado entre dez e doze alunos surdos.
Outro sucesso registrado foi Gaspard de Burgos, um homem surdo que havia sido recusado pela própria ordem beneditina por não conseguir se confessar oralmente: com Ponce de León, aprendeu a falar o suficiente para fazer sua confissão e ingressar na ordem.
O método: da escrita à fala, com as mãos dos monges
O relato de um aluno resume o percurso: "Comecei a aprender a escrever e, antes de tudo, escrevi os nomes dos objetos que meu professor me mostrava". Ponce de León partia da escrita, associando palavras a objetos, e só depois trabalhava a fala. E há indícios de que usava um alfabeto manual, provavelmente derivado dos gestos que os monges beneditinos, sujeitos a longos períodos de silêncio, usavam entre si no dia a dia do mosteiro.
Esse detalhe é saboroso: os sinais monásticos do silêncio teriam dado origem ao alfabeto manual que, aperfeiçoado e publicado por Juan Pablo Bonet em 1620, viajaria pela França de l'Épée até chegar às línguas de sinais modernas, incluindo a Libras. Ponce de León morreu em Oña, em 1584, sem publicar seu método, que permaneceu como segredo de família dos preceptores espanhóis até a geração de Bonet.
Por que um monge do século 16 abre a nossa galeria
Ouvinte, Ponce de León entra nas nossas Biografias como o ponto de partida documentado de tudo: a primeira prova prática de que pessoas surdas podiam ser educadas, dada em pleno século 16, contra a filosofia, a medicina e o senso comum da época. Seus objetivos eram os do seu tempo, fazer o surdo falar para garantir herança e sacramentos, mas o efeito atravessou os séculos.
Cada etapa seguinte da história que este site conta, de Bonet a l'Épée, de Clerc a Huet e ao INES, existe porque um monge em um mosteiro espanhol resolveu duvidar de Aristóteles.
