Patrícia Luiza Ferreira Rezende - a pesquisadora surda que hoje dirige a política de educação bilíngue no MEC
Patrícia Luiza Ferreira Rezende é professora, pesquisadora e liderança surda brasileira, doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e docente do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Atualmente ocupa a Diretoria de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos do Ministério da Educação, conforme a página oficial de composição do MEC.
Sua trajetória tem uma coerência rara: a mesma pessoa que passou anos criticando academicamente as políticas públicas para surdos ocupa hoje o cargo que formula essas políticas dentro do governo federal.
A tese sobre o implante coclear
Em 2010, Patrícia Rezende defendeu na UFSC a tese Implante Coclear na Constituição dos Sujeitos Surdos, no Programa de Pós-Graduação em Educação. O tema é delicado e a abordagem dela é a de quem olha pelo lado de dentro da comunidade surda.
A pesquisa não trata o implante coclear como uma questão médica, e sim como um discurso: quem fala em nome da criança surda, que promessas são feitas às famílias e o que acontece com a Libras e com a cultura surda no meio desse processo. A tensão central que ela descreve é entre a surdez lida como deficiência a ser corrigida e a surdez lida como diferença linguística e cultural.
Em 2013, a tese virou o livro Implante Coclear: normalização e resistência surda, publicado pela Editora CRV. O título resume o argumento: existe uma pressão social pela normalização do corpo surdo, e existe uma resistência surda que reivindica o direito à língua de sinais mesmo quando há tecnologia auditiva envolvida. O trabalho não é um manifesto contra pessoas implantadas, é uma análise de como as escolhas das famílias são conduzidas.
Uma das primeiras doutoras surdas do Brasil
Patrícia Rezende pertence ao pequeno grupo dos primeiros doutores surdos brasileiros atuando em educação e linguística nas universidades públicas do país. Esse grupo tem uma data simbólica: 2012, quando os sete primeiros doutores surdos do Brasil assinaram uma carta aberta ao Ministério da Educação em defesa das escolas bilíngues.
O episódio está registrado no artigo Em defesa da escola bilíngue para surdos: a história de lutas do movimento surdo brasileiro, que ela publicou em 2014 na Educar em Revista com Ana Regina Campello. É um documento importante da história recente: pela primeira vez, surdos com titulação acadêmica máxima confrontaram o Estado com argumento científico próprio, e não por intermédio de especialistas ouvintes.
A tese central do artigo é que estudantes surdos aprendem mais em escolas bilíngues, onde a Libras é a língua de instrução e o português escrito entra como segunda língua. As autoras sustentam que matricular a criança surda numa escola comum sem compartilhamento linguístico, isto é, sem que ninguém em volta sinalize, prejudica a aquisição da língua e o desenvolvimento cognitivo.
Elas também respondem à acusação mais comum contra o modelo: escola bilíngue não é segregação. É o espaço em que a identidade linguística da comunidade surda se forma, um direito amparado pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. O texto documenta a mobilização do movimento surdo entre 2010 e 2014 pela inclusão das escolas bilíngues no Plano Nacional de Educação.
Professora no INES
Patrícia Rezende é professora do INES, no Rio de Janeiro, onde atua no curso de Pedagogia com ênfase em educação bilíngue de surdos. Suas linhas de trabalho são políticas linguísticas e educacionais para surdos, estudos surdos, artes e literatura surda e resistência surda.
Formar professores dentro do INES tem um peso particular: a instituição, criada em 1857, é a mais antiga da educação de surdos no Brasil, e por boa parte de sua história foi dirigida e pensada por ouvintes.
Da crítica acadêmica ao cargo público
A Diretoria de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos foi criada no MEC em 2019 e desde 2023 funciona dentro da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), episódio que gerou grande repercussão na comunidade surda e que já contamos aqui no site. O cargo de diretor sempre foi ocupado por pessoas surdas.
É essa diretoria que Patrícia Rezende comanda hoje. Na prática, ela responde pela formulação e pela coordenação das políticas federais de educação bilíngue de surdos, o mesmo terreno que estudou e cobrou de fora durante anos.
Por que Patrícia Rezende importa
A história da educação de surdos no Brasil foi escrita, durante mais de um século, por pessoas que ouviam. Médicos, fonoaudiólogos, pedagogos e gestores decidiram o que era melhor para os surdos sem que os surdos estivessem na sala.
A trajetória de Patrícia Rezende marca a virada desse quadro. Ela representa a geração que entrou na universidade, produziu ciência sobre a própria condição e chegou aos cargos onde as decisões são tomadas. Da carta aberta de 2012 à cadeira de diretora no MEC, é a mesma pauta em outro lugar da mesa.
