Marie Jean Philip - a pioneira da educação bilíngue para surdos que também deixou marca no Brasil
Marie Jean Philip. By Deafpride at English Wikipedia, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=92399583Marie Jean Philip foi uma das maiores lideranças da comunidade surda americana e mundial, pioneira da educação bilíngue-bicultural, o modelo que ensina a criança surda tendo a língua de sinais como primeira língua e a língua escrita do país como segunda. Filha de pais surdos, dedicou a vida a provar que a língua de sinais é uma língua completa e que a criança surda aprende mais e melhor quando educada nela. Seu trabalho de divulgação internacional passou por vários países, incluindo o Brasil.
Marie nasceu em 20 de abril de 1953, em Worcester, Massachusetts, filha de John e Doris Philip, ambos surdos; o pai era uma liderança destacada da comunidade surda local. A primeira escola a que os pais a levaram, oralista, chegou a rejeitá-la porque ela sinalizava. A família a matriculou então na American School for the Deaf, a histórica escola de Hartford, onde Marie floresceu.
Da pesquisa em ASL à sala de aula universitária
Depois de passar pela Gallaudet e se formar em Linguística com ênfase em Antropologia Cultural pela Northeastern University, Marie trabalhou como assistente de pesquisa em língua de sinais americana (ASL) na própria Northeastern, experiência que acendeu sua militância: a ASL precisava ser reconhecida como língua de verdade, com gramática e cultura próprias.
Ela se tornou uma das primeiras professoras surdas da Northeastern University e foi peça-chave para que a ASL fosse aceita como disciplina universitária em Massachusetts no início dos anos 1980. Também ajudou a criar, em 1985, a Comissão de Massachusetts para Surdos e Deficientes Auditivos, órgão público de defesa de direitos.
O Learning Center e o modelo bilíngue-bicultural
Em 1987, Marie assumiu a coordenação bilíngue-bicultural do The Learning Center for the Deaf, em Framingham, Massachusetts, onde construiu sua obra mais duradoura: um currículo escolar completo em que a ASL e o inglês convivem com o mesmo status, e as culturas surda e ouvinte são igualmente respeitadas. Professora, mentora, conselheira e mediadora, ela transformou a escola em referência mundial do modelo.
Seu ativismo cruzou fronteiras: Marie viajou o mundo ensinando e defendendo a educação de crianças surdas, com passagens por países como Brasil, Japão e Nicarágua, sempre com a mesma mensagem, a de que toda criança surda tem direito a uma língua plena desde cedo.
Um legado que virou nome de escola
Marie morreu precocemente em 24 de setembro de 1997, aos 44 anos, de embolia pulmonar, quando cursava o doutorado em Educação de Surdos na Universidade de Boston. Seu funeral reuniu pessoas de vários países. As homenagens vieram à altura: no mesmo ano, a Northeastern University criou a competição nacional Marie Jean Philip de poesia, narrativa e arte em ASL, que até hoje reúne estudantes surdos dos EUA e do Canadá; e o The Learning Center renomeou sua escola de educação básica como Marie Philip School.
Para quem estuda Libras, a história de Marie Jean Philip tem sabor especial: o modelo bilíngue-bicultural que ela ajudou a construir é exatamente o que a comunidade surda brasileira defende para a educação de surdos no Brasil, com a Libras como primeira língua e o português como segunda.