Marianne Stumpf - a pioneira da escrita de sinais no Brasil
Marianne Rossi Stumpf é a pesquisadora surda que colocou a Libras no papel. Primeira mulher surda a publicar uma pesquisa sobre a escrita de sinais no Brasil, doutora pela UFRGS com tese premiada pela CAPES, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ela é a grande referência brasileira em SignWriting, o sistema que permite ler e escrever as línguas de sinais.
Se hoje estudantes surdos podem registrar sua própria língua por escrito, sem depender do português, boa parte desse caminho foi aberta pelo trabalho dela.
Formação: da informática à educação de surdos
A trajetória acadêmica de Marianne começou pela tecnologia: graduou-se em Tecnologia de Informática pela ULBRA em 2000 e, na sequência, em Educação de Surdos pela UNISC, em 2004. A combinação não foi acaso, e sim o alicerce do seu projeto de vida: usar a informática para ensinar crianças surdas a escrever na própria língua.
No doutorado em Informática na Educação pela UFRGS, concluído em 2005, ela investigou exatamente isso. A tese, Aprendizagem de Escrita de Língua de Sinais pelo Sistema SignWriting: língua de sinais no papel e no computador, acompanhou crianças surdas usuárias da Libras e da língua de sinais francesa aprendendo a escrever seus sinais, e incluiu estágios nas universidades francesas Paul Sabatier e Paris 8. Em 2006, o trabalho foi premiado pela CAPES. Anos depois, Marianne ainda faria pós-doutorado na Universidade Católica Portuguesa (2013-2014).
SignWriting: a Libras no papel e no computador
O SignWriting foi criado em 1974 pela americana Valerie Sutton, a partir de um sistema de notação de dança. É uma escrita visual, com símbolos que representam as mãos, os movimentos e as expressões faciais dos sinais. Marianne trouxe e adaptou o sistema para a realidade da Libras, tornando-se referência nacional no ensino da Libras como primeira língua também na modalidade escrita.
Para a comunidade surda, o que está em jogo é grande: uma língua que pode ser escrita ganha dicionários, literatura, registros históricos e espaço na escola. Na UFSC, Marianne é vice-líder do grupo de pesquisa sobre SignWriting e líder do grupo de Léxico e Terminologia em Libras, coordenando ainda um glossário on-line de sinais acadêmicos, os termos técnicos que os estudantes surdos precisam no ensino superior.
UFSC, Letras-Libras e ENEM em Libras
Professora e pesquisadora da UFSC desde 2007, Marianne atua no curso Letras-Libras e no Programa de Pós-Graduação em Linguística, e chegou à vice-direção do Centro de Comunicação e Expressão da universidade. Pelo Letras-Libras a distância, em parceria com instituições de todo o país, participou da formação de mais de mil profissionais, entre professores e tradutores-intérpretes de Libras.
Sua atuação passa ainda pela cooperação internacional, com passagem pela Gallaudet University e parcerias com universidades dos Estados Unidos, de Portugal, da Espanha e da França, e pela política educacional: integrou comitê técnico-pedagógico de Libras ligado ao INEP e participou das traduções do ENEM em Libras entre 2017 e 2019, que abriram o maior exame do país aos candidatos surdos em sua própria língua. Também integra o grupo de Documentação da Libras coordenado por Ronice Müller de Quadros e organizou, com a pesquisadora surda Gladis Perlin, os livros Um Olhar Sobre Nós Surdos e Estudos Surdos II.
Por que Marianne Stumpf inspira
Entre as dezenas de doutoras surdas do Brasil, Marianne tem um lugar de fundadora: sua tese de 2005 abriu a lista, e ela está entre as primeiras surdas brasileiras com pós-doutorado. Cada uma dessas conquistas foi obtida num sistema educacional que raramente estava preparado para recebê-la.
Seu legado, porém, vai além dos títulos: é a ideia, hoje em expansão nas escolas bilíngues, de que a criança surda tem direito de aprender a ler e escrever na sua primeira língua. A Libras escrita, que parecia utopia, virou campo de pesquisa, disciplina de curso superior e ferramenta de milhares de estudantes, e isso tem a assinatura de Marianne Stumpf.
