Lucinda Ferreira Brito

Lucinda Ferreira Brito - a pioneira da linguística das línguas de sinais no Brasil

Retrato de Lucinda Ferreira BritoLucinda Ferreira Brito

Lucinda Ferreira Brito é a linguista que abriu o caminho científico da Libras no Brasil. Nos anos 1980, quando quase ninguém no país estudava línguas de sinais, ela descreveu não uma, mas duas: a língua de sinais usada nos centros urbanos brasileiros, que viria a se chamar Libras, e a língua de sinais dos indígenas Urubu-Kaapor, na Amazônia. Seu livro Por uma Gramática de Línguas de Sinais, de 1995, é apontado como a primeira obra resultante de estudos linguísticos sobre a Libras.

Ouvinte, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ferreira Brito deu à comunidade surda um argumento que mudou a história: a demonstração científica de que a língua de sinais brasileira é uma língua de verdade, com gramática própria.

Formação: de São Paulo a Paris e Berkeley

Lucinda formou-se em Letras-Português pela PUC de São Paulo em 1971 e fez mestrado em Linguística na USP, concluído em 1974. Seguiu para a França com bolsa do governo francês e doutorou-se em 1977 na Universidade de Paris IV (Sorbonne), sob orientação do linguista Bernard Pottier.

Entre 1982 e 1984, fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley, convivendo com nomes gigantes da linguística e da filosofia da linguagem, como John Searle, Charles Fillmore e George Lakoff. Mais tarde, faria ainda dois estágios no Instituto Max Planck de Psicolinguística, na Holanda. Sua carreira docente passou pela Universidade de Mogi das Cruzes, pela UFPE e pela Universidade de Illinois, até se firmar na UFRJ, e incluiu um período como assessora técnica do MEC.

Duas línguas de sinais brasileiras: LSCB e a língua dos Kaapor

Foi a partir de 1979 que Lucinda começou a trabalhar com as línguas de sinais do Brasil. Sua pesquisa tinha um recorte inédito: além da língua de sinais dos surdos das cidades, que ela chamava de LSCB (Língua de Sinais dos Centros Urbanos Brasileiros), ela estudou a LSKB, a língua de sinais dos indígenas Urubu-Kaapor, na Floresta Amazônica, comunidade em que a proporção de pessoas surdas era alta e onde os sinais circulavam entre surdos e ouvintes.

Em 1982, produziu filmes documentando a língua de sinais Urubu-Kaapor, e nos anos seguintes publicou comparações entre as duas línguas em espaços internacionais de peso, como o simpósio internacional de pesquisa em língua de sinais de Roma, em 1983, e a revista Sign Language Studies, em 1984. O Brasil entrava no mapa mundial da linguística das línguas de sinais.

O livro de 1995 e a sigla LIBRAS

Depois de Integração Social e Educação de Surdos (1993), Lucinda publicou em 1995, pela editora Tempo Brasileiro, o livro Por uma Gramática de Línguas de Sinais: 274 páginas descrevendo fonologia, morfologia e sintaxe da língua dos surdos brasileiros. Pesquisadores tratam a obra como seminal na difusão da ideia de que a Libras é uma língua de pleno direito, e ela mesma como figura precursora da área no país.

O próprio nome LIBRAS tem a ver com essa história. Segundo a pesquisadora relata no livro, a adoção da sigla veio de uma reunião na FENEIS, em outubro de 1993: mesmo sem seguir o padrão internacional de nomeação de línguas de sinais, prevaleceram os anseios da comunidade surda, e Lucinda acatou e ajudou a consolidar e difundir o nome escolhido pelos surdos. Em 1997, ela ainda organizou o volume Língua Brasileira de Sinais publicado pelo MEC, levando a descrição da língua para a formação de professores de todo o país.

O legado de quem provou que a Libras é língua

Além da obra escrita, Lucinda formou pesquisadores que se tornaram referências, orientando desde os anos 1980 dissertações sobre a Libras, e editou a Revista GELES, do Grupo de Estudos sobre Linguagem, Educação e Surdez. Quando a Lei 10.436 reconheceu a Libras em 2002, a base científica que sustentava aquele reconhecimento devia muito às décadas de trabalho dela.

Toda vez que alguém afirma, com naturalidade, que a Libras é uma língua completa, com gramática própria, está repetindo o que Lucinda Ferreira Brito demonstrou quando isso ainda precisava ser provado. É o tipo de contribuição silenciosa que sustenta todas as outras conquistas da comunidade surda brasileira.

Referências:

  1. CEILIS - UFES. Língua Brasileira de Sinais (Libras): 20 anos de seu reconhecimento legal. Disponível em: <https://ceilis.ufes.br/conteudo/lingua-brasileira-de-sinais-libras-20-anos-de-seu-reconhecimento-legal>. Acesso em: 15 Jul. 2026
  2. ANGELA BAALBAKI; BEATRIZ CALDAS; TATHIANA NOGUEIRA. Ainda se busca "por uma gramática de línguas de sinais"? A figura de uma precursora. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/rl/article/view/36046>. Acesso em: 15 Jul. 2026.
  3. EL KHOURI; XAVIER; CARNEIRO; LUDWIG. Descrição e Análise Linguística da Língua Brasileira de Sinais (editorial). Disponível em: <https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/portodasletras/article/view/11453>. Acesso em: 15 Jul. 2026.
  4. ELIAMAR GODOI. Por uma gramática de língua de sinais (resenha). Disponível em: <https://seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/29990>. Acesso em: 15 Jul. 2026.
  5. LUCINDA FERREIRA BRITO. Por uma gramática de línguas de sinais. ed. 1. RJ: Tempo Brasileiro, 1995. p. 274.
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