Jean Massieu

Jean Massieu - o primeiro professor surdo da história moderna

Retrato de Jean MassieuJean Massieu. Jean Massieu, a deaf mute. Engraving by L.A. Bouteloup. Iconographic Collections.

Jean Massieu foi o primeiro grande professor surdo da era moderna: aluno predileto do abade Sicard, tornou-se professor do histórico instituto de surdos de Paris e formou ninguém menos que Laurent Clerc, o homem que levaria a educação de surdos aos Estados Unidos. Celebridade intelectual da Europa de seu tempo, Massieu provou nos salões e nas salas de aula que um surdo podia não apenas aprender, mas ensinar, e brilhar.

Massieu nasceu surdo em 2 de setembro de 1772, em Semens, uma pequena aldeia perto de Bordeaux, na França, filho de um viticultor pobre. A surdez era o idioma da casa: ele era o segundo de seis irmãos, todos surdos, três meninos e três meninas. Como era regra na época, cresceu sem escola, até que, aos 13 anos, sua vida cruzou com a do abade Sicard, que o matriculou na escola de surdos de Bordeaux.

De aluno sem letras a professor do instituto de Paris

O talento de Massieu era extraordinário. Aprendeu a ler e escrever francês, ajudou a desenvolver e formalizar a língua de sinais francesa usada no ensino e, aos 19 anos, já ocupava posição de repetidor (professor auxiliar) na escola. Quando Sicard assumiu o instituto de Paris como sucessor de l'Épée, levou Massieu junto como professor assistente principal: um surdo ensinando na instituição mais importante do mundo em sua área.

Foi em Paris, em 1797, que Massieu recebeu um aluno de 11 anos chamado Laurent Clerc. O menino se tornaria seu discípulo, depois colega de docência e, por fim, o cofundador da primeira escola para surdos dos Estados Unidos, ao lado de Thomas Gallaudet. A cadeia é direta: Massieu formou Clerc, e Clerc formou a América.

A celebridade das demonstrações públicas

Massieu ganhou fama europeia nas célebres demonstrações públicas do instituto, sessões em que respondia por escrito, diante de plateias lotadas, a perguntas filosóficas lançadas pelo público. Suas respostas rápidas e engenhosas causavam assombro: um relato de 1820 diz que elas saíam "como faísca de pedra batida com isqueiro". Em 1815, participou com Sicard e Clerc das demonstrações em Londres, publicadas em livro na época, e foi nessa turnê que Thomas Gallaudet conheceu o trio, com as consequências que a história registra.

Com a morte de Sicard, em 1822, Massieu deixou o instituto de Paris. Recomeçou em Rodez, no sul da França, onde dirigiu a escola de surdos local a partir de 1823, e depois fundou uma escola de surdos em Lille, no norte do país, onde também constituiu família. Morreu em Lille, em 21 de julho de 1846. Três anos depois, Laurent Clerc publicou nos Estados Unidos um elogio fúnebre ao mestre, na revista American Annals of the Deaf and Dumb.

O que Massieu representa

O lugar de Jean Massieu na história é imenso: ele é o elo em que a educação de surdos deixou de ser algo que ouvintes faziam *para* surdos e passou a ser algo que surdos faziam, com autoridade, para os seus. Cada professor surdo em sala de aula hoje, no Brasil e no mundo, está na linhagem profissional inaugurada por aquele filho de viticultor que só entrou na escola aos 13 anos.

Referências:

  1. UCL FACULTY OF BRAIN SCIENCES (DCAL). Jean Massieu. Disponível em: <https://www.ucl.ac.uk/brain-sciences/pals/research/deafness-cognition-and-language-dcal/history-british-sign-language/early-deaf-education/jean-massieu>. Acesso em: 14 Jul. 2026
  2. SOCIÉTÉ LAURENT CLERC. Jean Massieu. Disponível em: <https://www.laurentclerc.org/copy-of-clerc-documents>. Acesso em: 14 Jul. 2026
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