Gladis Perlin

Gladis Perlin - a primeira doutora surda do Brasil

Retrato de Gladis PerlinGladis Perlin

Gladis Teresinha Taschetto Perlin é uma pesquisadora e professora universitária gaúcha que abriu um caminho histórico: foi a primeira pessoa surda do Brasil a conquistar o título de doutora. Mais do que o pioneirismo acadêmico, ela transformou a forma como o país estuda a surdez, ao colocar no centro do debate os conceitos de identidade, cultura e povo surdo, a partir do olhar de quem vive a experiência.

Natural de Jaguari, na região central do Rio Grande do Sul, Gladis ficou surda na infância, em decorrência de uma meningite. Crescendo na zona rural, enfrentou as barreiras de comunicação típicas de um tempo sem intérpretes e sem acesso à língua de sinais, uma vivência que mais tarde se tornaria matéria-prima de sua obra acadêmica.

Da teologia aos Estudos Surdos

O percurso acadêmico começou pela teologia: Gladis se formou em Licenciatura em Teologia pela PUC do Rio Grande do Sul em 1987, tendo convivido em uma comunidade religiosa onde pessoas surdas facilitavam a comunicação. Seguiu-se a especialização em formação de professores de educação especial e, nos anos 1990, a guinada definitiva para a pesquisa.

No mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), concluído em 1999 com a dissertação "Histórias de Vida Surda: Identidades em questão", ela desenvolveu o trabalho que a tornaria referência nacional: a classificação das identidades surdas, mostrando que não existe um jeito único de ser surdo, mas múltiplas identidades construídas na relação com a língua, a cultura e a comunidade. O estudo é ensinado até hoje nos cursos de Libras e de educação de surdos do país inteiro.

O doutorado veio na sequência, também pela UFRGS (1999-2003), com a tese "O ser e o estar sendo surdo: alteridade, diferença e identidade", orientada por Carlos Skliar, um dos nomes centrais dos Estudos Surdos na América Latina. Com a defesa, Gladis se tornou a primeira doutora surda do Brasil.

Professora da UFSC e voz do povo surdo

Como professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), casa do curso Letras-Libras que formou gerações de professores e tradutores surdos, Gladis dedicou a carreira aos Estudos Surdos, com pesquisas sobre pedagogia cultural, professores surdos e as formas próprias de o povo surdo narrar a si mesmo.

Sua mensagem, repetida em palestras pelo país, desmonta o olhar clínico sobre a surdez: "O surdo não é melhor nem pior que o ouvinte. O que os diferencia é a forma de comunicação". Na obra dela, a surdez deixa de ser falta e vira diferença: uma experiência visual do mundo, com língua, cultura e identidades próprias.

O legado de Gladis Perlin

O pioneirismo de Gladis Perlin não foi só pessoal. Ao provar que uma mulher surda do interior gaúcho podia chegar ao topo da academia brasileira, ela abriu a porta por onde passaram as doutoras e doutores surdos que vieram depois, muitos deles formados ou inspirados por seus textos.

Hoje, quando um curso de pedagogia discute "identidades surdas", quando uma escola bilíngue afirma a cultura surda como riqueza e não como falta, ou quando um pesquisador surdo defende sua tese em Libras, há um pouco do legado de Gladis Perlin ali: a certeza de que o povo surdo pode e deve ser autor da própria história, inclusive da história científica.

Referências e Anexos:

  1. ESCAVADOR. Gladis Teresinha Taschetto Perlin - Curriculo (dados do Lattes). Disponível em: <https://www.escavador.com/sobre/9234078/gladis-teresinha-taschetto-perlin>. Acesso em: 13 Jul. 2026
  2. FURG - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE. Primeira doutora surda do Brasil fala na FURG de suas experiencias. Disponível em: <https://www.furg.br/noticias/noticias-arquivo/furg-18536>. Acesso em: 13 Jul. 2026
  1. ANEXO: O ser e o estar sendo surdos: alteridade, diferenca e identidade (tese de doutorado)
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