Gertrude Ederle - a nadadora surda que venceu o Canal da Mancha e depois ensinou crianças surdas a nadar
Gertrude Ederle. By Bain News Service, publisher - United States Library of Congress Prints and Photographs division, digital ID ggbain.37118, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2815537Gertrude Ederle foi a primeira mulher a atravessar a nado o Canal da Mancha, em 1926, com um tempo tão rápido que superou o recorde masculino da época em quase duas horas. Menos conhecida é a outra parte da história: Trudy, como era chamada, convivia com perda auditiva desde a infância, causada pelo sarampo, e décadas depois, já surda, dedicou anos de sua vida a ensinar natação para crianças surdas.
Gertrude Caroline Ederle nasceu em 23 de outubro de 1905, em Nova York, filha de imigrantes alemães donos de um açougue em Manhattan. Ainda criança, teve sarampo, doença que sobreviveu, mas que deixou como sequela uma perda auditiva importante. Foi o pai quem ensinou os seis filhos a nadar no mar de Nova Jersey, nas férias de verão, e Gertrude logo se destacou: entrou para a Women's Swimming Association ainda adolescente e aprendeu ali o estilo crawl que a levaria à fama.
Do ouro olímpico ao recorde histórico no Canal da Mancha
Em 1924, aos 18 anos, Gertrude disputou os Jogos Olímpicos de Paris e voltou para casa com uma medalha de ouro no revezamento 4x100m livre e duas de bronze, nos 100m e 400m livre. Mas a marca que a tornaria lendária veio dois anos depois: em 6 de agosto de 1926, após uma tentativa frustrada em 1925, ela nadou os cerca de 56 quilômetros entre a França e a Inglaterra em 14 horas e 31 minutos, tornando-se a primeira mulher a cruzar o Canal da Mancha. O tempo bateu o recorde masculino anterior por quase duas horas e ficou como marca feminina por 35 anos. De volta a Nova York, foi recebida com desfile de confete e o presidente Calvin Coolidge a chamou de "a melhor garota da América".
Ao contrário do que a imprensa da época divulgou, Gertrude não ficou surda de repente logo depois da travessia: ela já convivia com a perda auditiva desde a infância, por causa do sarampo. A travessia, porém, deixou sua marca: segundo a Britannica, a audição de Gertrude ficou permanentemente comprometida durante a conquista do Canal.
Um acidente, a surdez total e uma nova missão
Em 1933, Gertrude escorregou em uma escada e sofreu uma lesão grave na coluna, que a impediu de andar por vários anos e encerrou de vez sua carreira competitiva. Nos anos 1940, sua audição piorou ainda mais, até ficar praticamente surda por completo.
Longe dos holofotes das competições, Gertrude encontrou um novo propósito: passou a ensinar natação para crianças com deficiência auditiva na Lexington School for the Deaf, em Nova York. Ela não sabia língua de sinais, mas isso não a impediu de dar aulas dentro da própria água, usando o corpo e o exemplo para orientar as crianças. Faleceu em 30 de novembro de 2003, em Wyckoff, Nova Jersey, aos 98 anos.
O legado de Gertrude Ederle
Gertrude Ederle foi introduzida no International Swimming Hall of Fame em 1965 e no Women's Sports Hall of Fame em 1980, reconhecimentos que celebram tanto a atleta quanto a mulher que, já surda, escolheu passar o resto da vida ensinando outras crianças surdas a nadar.
A trajetória de Gertrude derruba um estereótipo comum: o de que a surdez seria incompatível com o alto rendimento esportivo. Ela não apenas venceu um dos maiores desafios da natação mundial convivendo com perda auditiva, como transformou essa experiência em ponte para ajudar outras crianças surdas a também conquistarem a água.