George Veditz - o homem que filmou a língua de sinais para salvá-la
George Veditz. By Unknown author - James Ernst Gallaher (1898) Representative Deaf Persons of the United States of America, p. 24, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=37350449George William Veditz foi o líder surdo que teve, em 1910, uma ideia à frente do seu tempo: usar a mais nova tecnologia da época, o cinema, para registrar e preservar a língua de sinais, então ameaçada de extinção pelo avanço do oralismo nas escolas. Seu discurso filmado em 1913, "The Preservation of the Sign Language", é o mais antigo registro em vídeo da defesa de uma língua de sinais e entrou para o National Film Registry, o acervo dos filmes mais importantes da história americana.
Veditz nasceu em 1861, em Baltimore, filho de imigrantes alemães, e ficou surdo aos 8 anos por causa de uma escarlatina, já fluente em inglês e alemão falados. Estudou com tutores particulares até os 14 anos e então entrou na Escola de Surdos de Maryland. Queria ir para a Gallaudet em 1878, mas não tinha dinheiro: trabalhou na gráfica da escola, o primeiro ano de graça e o segundo por 6 dólares mensais, até juntar o suficiente. Matriculou-se em 1880 e formou-se em 1884 como orador da turma, o melhor aluno, completando depois o mestrado (1887).
Professor, enxadrista e liderança nacional
Veditz lecionou na escola de Maryland e depois na Escola de Surdos do Colorado, onde passou 17 anos como professor e contador, fundou a associação de surdos local e conheceu a esposa, Bessie Bigler, em uma partida de xadrez, jogo em que era tão bom que enfrentou campeões mundiais como o cubano José Capablanca. Em 1904, chegou ao topo da liderança comunitária: foi eleito presidente da National Association of the Deaf (NAD), a associação nacional dos surdos americanos, cargo que ocupou até 1910.
Contra o oralismo, a câmera
A presidência de Veditz coincidiu com o período mais sombrio da história das línguas de sinais: após o Congresso de Milão (1880), o oralismo dominava as escolas, professores surdos eram demitidos e sinalizar em sala era proibido em boa parte do mundo. Veditz enxergou no cinema, que acabava de nascer, uma arca de Noé para a língua: liderou a campanha da NAD para arrecadar fundos e filmar os grandes mestres da sinalização antes que desaparecessem.
Do projeto, iniciado em 1910, saiu sua peça mais famosa: o filme de 1913 em que o próprio Veditz, em sinais solenes, defende o direito dos surdos à sua língua. Dele vem a frase que a comunidade surda repete há mais de um século: "Enquanto tivermos nossos filmes, poderemos preservar os sinais em sua pureza original. É minha esperança que todos nós amemos e protejamos nossa bela língua de sinais como o mais nobre presente que Deus deu às pessoas surdas".
Um legado que a internet confirmou
Veditz morreu em 1937. Décadas depois, a história lhe deu razão duas vezes: a linguística provou que as línguas de sinais são línguas plenas, e seu filme de 1913 foi selecionado para o National Film Registry da Biblioteca do Congresso americano, oficialmente reconhecido como patrimônio cultural. Na era do YouTube e dos vídeos em Libras, cada canal surdo que registra sinais, poesia e histórias em vídeo está executando, sem saber, o plano de Veditz.
O lugar de George Veditz na história é o de estrategista: quando quiseram apagar a língua do seu povo, ele a gravou em película, e venceu.