Fernando César Capovilla

Fernando César Capovilla - o autor do grande dicionário de Libras

Retrato de Fernando César CapovillaFernando César Capovilla

Fernando César Capovilla é o psicólogo e professor da Universidade de São Paulo por trás da mais ambiciosa obra lexicográfica da Língua Brasileira de Sinais: o dicionário trilíngue de Libras, que começou como um manual nos anos 1990 e chegou a uma enciclopédia de três volumes com cerca de 14 mil verbetes. Ouvinte, ele dedicou mais de 25 anos de pesquisa a documentar, sinal por sinal, a língua da comunidade surda brasileira.

O trabalho rendeu reconhecimento dentro e fora do país: o dicionário foi premiado no Jabuti, o mais tradicional prêmio literário brasileiro, e laureado pela Gallaudet University, a universidade dos surdos nos Estados Unidos. Para milhares de professores, intérpretes e estudantes de Libras, "o Capovilla" virou sinônimo de dicionário.

Formação: da psicologia experimental à neuropsicologia

Capovilla formou-se psicólogo em 1982 e fez mestrado em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento na Universidade de Brasília, concluído em 1984. Seguiu para os Estados Unidos, onde obteve o doutorado em Psicologia Experimental pela Temple University, na Filadélfia, em 1989, recebendo o Outstanding Achievement Award da Associação de Psicologia da Pensilvânia.

De volta ao Brasil, construiu carreira no Instituto de Psicologia da USP, onde conquistou a livre-docência em Neuropsicologia em 2000 e chegou a professor titular. No instituto, passou a chefiar o Laboratório de Neurolinguística Cognitiva Experimental e o Laboratório de Tecnologia e Reabilitação Cognitiva, dedicados a estudar como a linguagem se desenvolve, inclusive quando o canal auditivo não está disponível.

O dicionário trilíngue de Libras

A pesquisa lexicográfica da Libras começou em 1994, no laboratório de Capovilla no Instituto de Psicologia da USP. O primeiro fruto foi um manual de Libras publicado em 1998. Em 2001 veio o salto: o Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira, assinado com Walkiria Duarte Raphael e publicado pela Edusp, com apresentação do neurologista Oliver Sacks. A obra foi premiada no Jabuti no ano seguinte e laureada pela Gallaudet University.

O projeto não parou de crescer. Em 2009 saiu o Novo Deit-Libras, com 9.500 sinais, ampliado na edição seguinte para cerca de 14 mil verbetes em português e 9.828 sinais de Libras, num trabalho que reuniu mais de 200 colaboradores e contou com a colaboração da Feneis, a federação nacional dos surdos. A terceira edição, revista e ampliada, chegou em 2015 em dois volumes e 2.800 páginas.

O ponto alto veio com o Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: a Libras em suas mãos, em três volumes publicados pela Edusp, com cerca de 14 mil verbetes. A obra é trilíngue: cada sinal aparece descrito em português, em inglês e em SignWriting, o sistema de escrita de sinais. Em 2018, o dicionário conquistou o primeiro lugar em Humanidades no Prêmio ABEU, das editoras universitárias brasileiras, e Capovilla foi eleito Neurocientista do Ano pelo Instituto Nanocell.

Pesquisa com estudantes surdos pelo Brasil

O dicionário é a face mais visível de um projeto maior. Capovilla coordena o Pandesb, Programa Nacional de Avaliação do Desenvolvimento do Escolar Surdo Brasileiro, que mapeou o desenvolvimento linguístico de 8 mil estudantes surdos em 15 estados. É um dos maiores levantamentos já feitos sobre como crianças e jovens surdos aprendem Libras, leitura e escrita no país.

Sua produção científica se estende à avaliação de transtornos de linguagem, dislexia, afasia, paralisia cerebral e alfabetização, somando cerca de 50 livros e 400 trabalhos científicos. Bolsista de produtividade nível 1 do CNPq, o topo da carreira de pesquisador no Brasil, recebeu ainda o título de Doutor Honoris Causa em Educação e integrou o Conselho Nacional de Educação entre 2022 e 2024.

Por que o trabalho dele importa para a comunidade surda

Dicionários fazem mais do que listar palavras: eles registram, legitimam e preservam uma língua. Quando a Libras foi oficializada pela Lei 10.436, em 2002, o país já contava com uma obra de referência monumental documentando seu léxico, e isso fortaleceu o argumento de que a língua de sinais brasileira é uma língua completa, com vocabulário vasto e estrutura própria.

O trabalho de Capovilla e de suas equipes, que incluíram pesquisadoras como Walkiria Duarte Raphael, Janice Gonçalves Temoteo, Aline Cristina Lofrese Maurício e Antonielle Cantarelli Martins, colocou a Libras no mesmo patamar editorial das grandes línguas orais. Para quem ensina, interpreta ou aprende Libras, essa documentação é ferramenta de trabalho diária e um patrimônio da comunidade surda brasileira.

Referências:

  1. AGÊNCIA FAPESP. Edusp lança dicionário de linguagem de sinais. Disponível em: <https://agencia.fapesp.br/edusp-lanca-dicionario-de-linguagem-de-sinais/11903>. Acesso em: 15 Jul. 2026
  2. INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA USP. Fernando César Capovilla. Disponível em: <https://www.ip.usp.br/site/fernando-cesar-capovilla/>. Acesso em: 15 Jul. 2026
  3. BIBLIOTECA VIRTUAL FAPESP. Fernando Cesar Capovilla - pesquisador. Disponível em: <https://bv.fapesp.br/en/pesquisador/5143/fernando-cesar-capovilla/>. Acesso em: 15 Jul. 2026
  4. CLAUDIA COSTA. "Dicionário da Língua de Sinais" exigiu 25 anos de pesquisas. Disponível em: <https://jornal.usp.br/cultura/dicionario-da-lingua-de-sinais-exigiu-25-anos-de-pesquisas/>. Acesso em: 15 Jul. 2026.
  5. FERNANDO CÉSAR CAPOVILLA; WALKIRIA DUARTE RAPHAEL; ALINE CRISTINA L. MAURÍCIO. Novo Deit-Libras: Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira. ed. 3. SP: Edusp, 2015. p. 0.
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