Auguste Bébian - o primeiro ouvinte fluente em língua de sinais a defendê-la como língua
Auguste Bébian. Illustration enhanced from the original Roch-Ambroise Auguste Bebian, oil painting, pre-1834, oil on canvas by Marie Auguste ChasseventRoch-Ambroise Auguste Bébian ocupa um lugar único na história: foi um dos primeiros ouvintes do mundo a alcançar fluência plena em uma língua de sinais e o primeiro a defendê-la publicamente como língua verdadeira, completa e digna de ser o idioma de ensino dos surdos, sem "consertos" gramaticais impostos pelos ouvintes. Ideias que a linguística só confirmaria um século e meio depois, e que fazem dele uma espécie de padroeiro intelectual de todos os que estudam Libras hoje.
Bébian nasceu em 4 de agosto de 1789, na ilha de Guadalupe, no Caribe francês. O pai o enviou ainda menino para estudar em Paris sob os cuidados do padrinho, que era ninguém menos que o abade Sicard, diretor do instituto de surdos de Paris. Aluno brilhante do liceu Charlemagne, o jovem passava horas livres no instituto, convivendo com os alunos surdos, e ali fez o que quase nenhum ouvinte fazia: aprendeu a língua de sinais francesa com os próprios surdos, até dominá-la como um nativo.
Contra os "sinais metódicos", a favor da língua natural
Dentro do instituto, Bébian tornou-se professor e desenvolveu uma posição revolucionária. O método oficial, herdado de l'Épée e mantido por Sicard, usava os "sinais metódicos": a língua de sinais artificialmente reorganizada para imitar a gramática do francês. Bébian argumentou que isso era um erro: a língua natural dos surdos já tinha estrutura própria e deveria ser o idioma de instrução, com o francês ensinado como segunda língua. Em 1817, publicou seu "Essai sur les sourds-muets et sur le langage naturel", o primeiro estudo sistemático em defesa da língua de sinais como língua.
Se a ideia soa familiar, é porque ela é exatamente o princípio da educação bilíngue de surdos defendida hoje no Brasil, com a Libras como primeira língua. Bébian chegou lá no início do século 19.
A Mimographie: escrever os sinais
Em 1825, Bébian publicou sua obra mais célebre: a "Mimographie, ou essai d'écriture mimique", editada em Paris, em que propôs um sistema de escrita para a língua de sinais, decompondo cada sinal em elementos como a forma da mão, o movimento e a expressão. Foi uma das primeiras tentativas da história de dar forma escrita a uma língua de sinais, antecipando em gerações os sistemas de notação modernos, como o SignWriting.
Suas reformas, porém, incomodaram. Defensor apaixonado do protagonismo surdo e crítico do establishment do instituto, Bébian acabou forçado a deixar o cargo em meio a disputas internas. Entre seus alunos e admiradores estava Ferdinand Berthier, o futuro fundador da primeira associação de surdos do mundo, que sempre o apontou como o professor que mais o influenciou.
Um aliado à frente do seu tempo
Bébian ainda publicou um manual prático de ensino (1827) e um elogio histórico ao abade de l'Épée, premiado na época. Voltou à sua Guadalupe natal, onde dirigiu uma escola e morreu no fim da década de 1830, longe do centro da cena que ajudou a transformar.
Ouvinte, Bébian entra nas nossas Biografias como talvez o mais moderno dos aliados históricos da comunidade surda: enquanto seus contemporâneos discutiam como adaptar os surdos à língua dos ouvintes, ele defendia o contrário, que os ouvintes aprendessem e respeitassem a língua dos surdos. Cada professor bilíngue, cada pesquisador de Libras e cada CODA militante de hoje repete, sem saber, o gesto de Bébian.