Antonio Campos de Abreu - uma vida de liderança no movimento surdo brasileiro
Antonio Campos de Abreu é uma das lideranças surdas mais longevas e respeitadas do Brasil. Historiador nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, ele presidiu a FENEIS, a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos, esteve na linha de frente da luta pela oficialização da Libras e acumula mais de quatro décadas e meia de trabalho pela educação de surdos.
Da associação de surdos de Minas Gerais a um cargo no governo federal, a trajetória de Abreu acompanha, por dentro, praticamente toda a história recente do movimento surdo brasileiro.
Formação: do INES à Gallaudet
Surdo, Abreu estudou no INES, o Instituto Nacional de Educação de Surdos, no Rio de Janeiro, a mais antiga instituição de educação de surdos do país. Mais tarde, atravessou fronteiras para se formar em liderança: fez curso de liderança para surdos na Universidade Gallaudet, em Washington, a universidade dos surdos nos Estados Unidos.
De volta ao Brasil, graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) e construiu carreira como professor de História e Geografia na Escola Estadual Francisco Sales, escola de surdos de Belo Horizonte. Em 2019, quando foi nomeado para o governo federal, já somava mais de 45 anos de experiência em educação de surdos e Libras.
FENEIS, esporte surdo e a luta pela Libras
A militância de Abreu começou em Minas: ele presidiu a Associação dos Surdos de Minas Gerais (ASMG) e ajudou a fundar a Federação Mineira Desportiva de Surdos e a Confederação Brasileira de Desportos dos Surdos (CBDS), onde atuou como voluntário e presidente. O esporte, vale lembrar, sempre foi um dos grandes espaços de encontro e organização da comunidade surda.
No plano nacional, Abreu se tornou presidente da FENEIS, entidade fundada em 16 de maio de 1987 a partir da reestruturação da antiga FENEIDA, e que se transformou na principal voz política dos surdos brasileiros. Foi um dos pioneiros na luta pela primeira Lei Estadual de Libras em Minas Gerais e, como representante da federação, participou ativamente da articulação nacional que pressionou o governo federal pelo reconhecimento da Libras: audiências públicas, mobilizações e negociações que desembocaram na Lei 10.436 de 2002 e no Decreto 5.626 de 2005.
Do governo federal de volta à presidência da FENEIS
Em março de 2019, Abreu foi nomeado Coordenador-Geral de Acessibilidade e Tecnologia Assistiva do Ministério dos Direitos Humanos, levando para dentro do governo a perspectiva de quem viveu as barreiras na própria pele. A nomeação de um surdo para o cargo foi celebrada pela comunidade como conquista de representatividade.
Anos depois, ele voltou ao posto mais alto do movimento: é o atual diretor-presidente da FENEIS, de onde segue cobrando acessibilidade em serviços públicos e políticas de educação bilíngue para surdos. Em 2025, na edição especial dos 20 anos do Decreto 5.626, a Revista Espaço, do INES, publicou uma entrevista com ele revisitando essa história de lutas.
Por que Abreu inspira
Poucas pessoas atravessaram tantas fases do movimento surdo brasileiro: a era das associações locais, o nascimento da FENEIS, a campanha pela oficialização da Libras, a chegada de surdos a cargos de decisão no Estado. Abreu esteve presente em todas elas, quase sempre em posição de liderança.
Sua trajetória mostra que a história da Libras não foi escrita apenas em leis e decretos, mas na militância paciente de líderes surdos que, geração após geração, transformaram associações e quadras de esporte em espaços de organização política. É essa história que ele, como historiador e protagonista, ajuda a registrar e a manter viva.
