Andrew Foster - o "pai da educação de surdos na África" fundou 31 escolas em um continente
Andrew Jackson Foster fez pela África o que Gallaudet e Clerc fizeram pelos Estados Unidos, só que em escala continental e contra barreiras dobradas. Primeiro negro surdo a se formar na Gallaudet University, em 1954, ele dedicou os 30 anos seguintes a fundar escolas para crianças surdas africanas: 31 instituições em países como Gana, Nigéria, Costa do Marfim, Quênia e Camarões. Não por acaso, é chamado de "pai da educação de surdos na África" e de "o Gallaudet da África".
Foster nasceu em 1925, em Ensley, no Alabama, no sul segregado dos Estados Unidos. Aos 11 anos, em 1936, contraiu meningite e ficou surdo, ele e o irmão Edward. Para um menino negro e surdo no Alabama dos anos 1930, as portas da educação estavam praticamente fechadas: as escolas para surdos do sul eram segregadas e precárias para alunos negros. Em 1942, mudou-se para Detroit, onde completou o ensino médio e estudos de comércio por conta própria.
O primeiro negro surdo formado pela Gallaudet
Em 1954, Foster fez história ao se tornar o primeiro afro-americano a se formar na Gallaudet, completando o curso em apenas três anos, exatamente no ano em que a Suprema Corte americana derrubava a segregação escolar. Ele não parou: emendou dois mestrados, um em Educação pela Eastern Michigan University (1955) e outro em Missões Cristãs em Seattle (1956).
Ordenado ministro religioso, Foster fundou em Detroit, em 1956, a Christian Mission for Deaf Africans, com um objetivo que muitos consideravam impossível: levar educação às crianças surdas da África, onde escolas para surdos praticamente não existiam e a surdez era cercada de estigma.
Gana, 1957: a primeira de 31 escolas
Em 1957, Foster abriu em Mampong-Akwapim, em Gana, sua primeira escola para surdos. Em 1960, transferiu a sede da missão para Ibadan, na Nigéria, com uma nova escola. E seguiu, país após país, fundando ao todo 31 escolas para surdos em nações como Benim, Congo, Chade, Costa do Marfim, Quênia, Nigéria, Serra Leoa e Camarões, além de formar professores surdos africanos para multiplicá-las. Gerações inteiras de líderes surdos africanos saíram das escolas de Foster.
O reconhecimento veio em vida: em 1970, a Gallaudet lhe concedeu o doutorado honorário em Letras Humanas. E veio também o fim trágico: em 1987, Foster morreu em um acidente aéreo em Ruanda, em pleno trabalho, deixando a missão em andamento. Em 2004, a Gallaudet batizou seu auditório com o nome dele, com um busto comemorativo.
Por que Andrew Foster inspira além da África
A vida de Andrew Foster acumulou barreiras que ele derrubou uma a uma: o racismo do sul segregado, a exclusão educacional dos surdos e o ceticismo de que um só homem pudesse mudar um continente.
Para o leitor brasileiro, a história de Foster tem um espelho evidente: assim como Eduard Huet atravessou o Atlântico para fundar o INES no Brasil, Foster provou que a educação de surdos se expande quando alguém decide ir aonde ninguém foi. A diferença é que ele fez isso 31 vezes.
