Ana Rímoli de Faria Dória

Ana Rímoli de Faria Dória - a diretora que marcou a era oralista do INES

Retrato de Ana Rímoli de Faria DóriaAna Rímoli de Faria Dória. ROCHA, Solange Maria da. O Ines e a educacao de surdos no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: INES (2008, p. 88)

Ana Rímoli de Faria Dória foi a educadora que dirigiu por uma década, entre 1951 e 1961, o atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), então chamado Instituto Nacional de Surdos-Mudos. Primeira mulher a comandar a instituição, ela liderou a maior expansão da educação de surdos que o Brasil havia visto até então, mas o fez sob a bandeira do oralismo, o método que buscava ensinar o surdo a falar e proibia ou desestimulava os sinais.

Entender a trajetória dela é entender um capítulo decisivo, e controverso, da história da comunidade surda brasileira: o período em que o país ganhou dezenas de escolas para surdos ao mesmo tempo em que a língua de sinais era empurrada para fora da sala de aula.

Formação e chegada ao instituto

Ana Rímoli nasceu em 7 de outubro de 1912, na cidade de São Paulo. Diplomou-se pela Escola Normal de São Paulo em 1930 e concluiu o Curso de Formação de Professores no Instituto de Educação da Universidade de São Paulo, onde também atuou como assistente dos laboratórios de Psicologia Aplicada e de Estatística e Educação Comparada.

Em 1941 ingressou no serviço público federal como Técnica de Educação do Ministério da Educação e Saúde. Passou por funções de inspeção e chefia, incluindo a seção de organização escolar do INEP, até que, em 23 de fevereiro de 1951, foi nomeada por decreto presidencial para dirigir o instituto de surdos do Rio de Janeiro. Curiosamente, ela chegou ao cargo sem experiência prévia na área da surdez.

A Campanha para a Educação do Surdo Brasileiro

Logo em 1951, criou o Curso Normal de formação de professores de surdos, com três anos de duração e disciplinas como Linguagem Fonética, Fonação, Didática Especial e Patologia Auditiva. Em 1957 veio o Curso de Especialização, de dois anos, para professores já experientes. Pela primeira vez o país formava, em escala, docentes especializados em ensinar estudantes surdos.

No mesmo ano de 1957, o Decreto nº 42.728 instituiu a Campanha para a Educação do Surdo Brasileiro (CESB), com a missão de levar a educação de surdos para além da capital federal. Os números impressionam: entre 1955 e 1959, as escolas para surdos no Brasil saltaram de 10 para 84, e 470 professores foram diplomados. A educação de surdos deixava de ser privilégio de poucas cidades.

O oralismo e a língua de sinais

Toda essa expansão, porém, tinha uma orientação pedagógica rígida. Ana Rímoli defendia o chamado Método Oral Puro, centrado na fala e na leitura labial, e resumia sua filosofia no lema de que nada podia ser ensinado sem que fosse falado pelo professor. Dialogava com os grandes nomes do oralismo internacional, como Alexander Graham Bell, Martha Bruhn e Edward Nitchie.

Para ela, os gestos eram um meio de comunicação limitado: chegou a escrever que estimular a gesticulação "animava a mudez" e prejudicava o desenvolvimento da criança. Ainda assim, em seu manual de 1961, admitia a possibilidade de uma "linguagem mímica sistemática", com intérpretes, nos casos em que o método oral falhasse. Suas ideias ficaram registradas em obras como o Compêndio de Educação da Criança Surdo-Muda (1958), Introdução à Didática da Fala (1959) e o Manual de Educação da Criança Surda (1961), além de traduções de livros oralistas estrangeiros.

Como a história avalia esse período

A gestão de Ana Rímoli é tratada pela historiografia como um marco: o instituto mudou profundamente a partir de 1951, e pesquisadores reconhecem que a formação especializada de professores representou um avanço real, mesmo sob um método hoje amplamente criticado. A comunidade surda, por sua vez, lembra o custo dessa era: gerações de estudantes educados sem a língua de sinais, que só voltaria oficialmente ao INES a partir de 1985, na direção de Lenita de Oliveira Viana, ex-aluna do Curso Normal criado pela própria Ana Rímoli.

A trajetória dela segue despertando interesse acadêmico: artigos e teses recentes mapeiam sua atuação, seus círculos intelectuais e o ideário oralista de sua época. Ana Rímoli é, ao mesmo tempo, a mulher que multiplicou escolas e professores para surdos pelo Brasil e o símbolo de um modelo educacional que a comunidade surda lutou décadas para superar, até a Libras conquistar seu reconhecimento como língua.

Referências e Anexos:

  1. EDNALVA GUTIERREZ RODRIGUES; CLÁUDIA MARIA MENDES GONTIJO. Descentralização da educação de surdos no Brasil e seus desdobramentos no Espírito Santo. Disponível em: <https://www.redalyc.org/journal/298/29849949018/html/>. Acesso em: 15 Jul. 2026.
  2. EDNALVA GUTIERREZ RODRIGUES; CLÁUDIA MARIA MENDES GONTIJO; ROGÉRIO DRAGO. Formação de Professores e Método de Ensino para Crianças Surdas. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rbee/a/KjhMNfKYT7vtVxfR5P75g8C/?lang=pt>. Acesso em: 15 Jul. 2026.
  3. LUANA DA LUZ CARDOSO; CARLOS HEROLD JÚNIOR. Educação e surdez na década de 1950 no Brasil: um panorama histórico acerca de Ana Rímoli de Faria Dória. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8645139>. Acesso em: 15 Jul. 2026.
  1. ANEXO: "Vida Fecunda, Obra Imperecível": Ana Rímoli de Faria Dória à frente do Instituto Nacional de Educação de Surdos 1951-61 (tese de doutorado)
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