Ana Regina e Souza Campello - a pesquisadora surda que colocou a visualidade no centro da educação de surdos
Ana Regina e Souza Campello é professora, pesquisadora e liderança surda brasileira, doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e docente do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Seu nome está ligado a duas frentes decisivas da história recente da comunidade surda no Brasil: a chegada dos próprios surdos à direção da FENEIS, em 1987, e a formulação acadêmica da chamada pedagogia visual.
Se hoje parece evidente que uma criança surda aprende por caminhos visuais, e não por uma adaptação improvisada do método pensado para ouvintes, boa parte desse consenso passou pela pesquisa de Ana Regina Campello.
Uma liderança surda desde os anos 1980
A trajetória de Ana Regina Campello começa na militância, antes da universidade. Ela participou da geração de surdos que, ao longo dos anos 1980, reivindicou o direito de falar por si mesma dentro das entidades que diziam representá-la.
Naquele período, a entidade nacional era a FENEIDA, a Federação Nacional de Educação e Integração do Deficiente Auditivo, dirigida por profissionais ouvintes. A pressão do movimento surdo levou à reformulação da entidade em 1987, quando ela passou a se chamar FENEIS, Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos. Ana Regina Campello foi a primeira presidente surda da federação nacional, conforme registra o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, do IPHAN, que a lista entre as pessoas de referência da Libras.
Não foi uma passagem isolada: ela voltaria à presidência da FENEIS em outras gestões e permanece, desde então, à frente das pautas do movimento surdo brasileiro. A mudança de 1987 tem um significado que vai além da sigla, porque foi a partir dela que a língua de sinais passou a ser o meio de comunicação das reuniões e das ações da própria entidade nacional dos surdos.
A tese de 2008 e a pedagogia visual
Em 2008, Ana Regina Campello defendeu no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC a tese Aspectos da Visualidade na Educação de Surdos. O trabalho é uma das referências mais citadas quando o assunto é ensino de estudantes surdos, e é dele que vem a difusão do termo pedagogia visual no vocabulário da área.
A tese parte de uma constatação simples e de consequências enormes: a Libras é uma língua visuo-espacial, e a pessoa surda constrói conhecimento pela via da imagem, do movimento e do espaço. Logo, a escola não precisa apenas traduzir para a Libras o conteúdo pensado para ouvintes. Precisa reorganizar o próprio modo de ensinar em torno da experiência visual.
Campello desenvolve a ideia de uma semiótica imagética, isto é, um olhar sistemático sobre como a imagem produz sentido para o sujeito surdo, e a partir dela propõe parâmetros para adaptar currículos, materiais e práticas de sala de aula. O trabalho percorre também a história da educação de surdos, mostrando como a linguagem visual foi tratada em diferentes períodos, ora reconhecida, ora sufocada pelo oralismo.
O alcance da tese se mede pelo uso que outros pesquisadores fazem dela. O conceito de pedagogia visual aparece hoje em estudos sobre ensino de matemática, de biologia, de literatura e sobre produção de materiais didáticos digitais em Libras, quase sempre citando Campello como base teórica.
Professora no INES e formadora de professores surdos
Ana Regina Campello é professora do Departamento de Ensino Superior do INES, no Rio de Janeiro, onde atua no curso de Pedagogia bilíngue e no mestrado profissional em Educação Bilíngue. Sua página como docente do programa resume as áreas em que trabalha: Educação de Surdos, Estudos Surdos, visualidade na educação de surdos, pedagogia surda, didática surda, tradução e interpretação de intérpretes surdos e estudos linguísticos da Libras.
Esse detalhe é importante para entender seu lugar na área: ela não forma apenas professores para surdos, forma professores surdos. A pedagogia surda que ela investiga é a que nasce da prática de docentes surdos com estudantes surdos, um conhecimento que por muito tempo circulou informalmente, sem virar teoria publicada.
No INES, ela também ocupou a chefia de gabinete do instituto, que é vinculado ao Ministério da Educação. Em 2019, nessa função, defendeu publicamente a educação bilíngue, argumentando que esse modelo oferece ao aluno surdo melhores condições de aprendizagem e mais autonomia linguística, e lembrando que o engajamento da família no aprendizado de Libras é decisivo para a criança.
Intérpretes surdos, cultura surda e as gírias dos jovens
Outra frente de pesquisa de Ana Regina Campello é a atuação do tradutor e intérprete surdo, profissional que trabalha entre línguas de sinais ou entre registros da mesma língua, e cuja função ainda é pouco conhecida fora da comunidade. É um campo em que a autoridade de quem pesquisa vem também da vivência: interpretar a partir da experiência surda não é o mesmo trabalho que interpretar a partir da audição.
Ela também se dedica à cultura surda contemporânea. Em 2016, publicou na Revista Interinstitucional Artes de Educar, da UERJ, o artigo Juventude e Cultura Surda, sobre como jovens surdos criam e transformam gírias em sinais. A conclusão do texto é que essas gírias de grupo são essenciais para a preservação da própria cultura surda, um argumento que desloca a língua de sinais do lugar de "recurso de acessibilidade" e a devolve ao lugar de língua viva, com juventude, humor e variação.
Por que Ana Regina Campello importa
A contribuição de Ana Regina Campello pode ser resumida em uma inversão. Durante mais de um século, a educação de surdos foi pensada a partir do que faltava ao surdo, a audição, e organizada por ouvintes. O trabalho dela parte do que o surdo tem, a experiência visual e a língua de sinais, e transforma isso em teoria pedagógica, publicada, citável e aplicável em sala de aula.
Da assembleia que criou a FENEIS em 1987 à sala de aula do INES, sua trajetória mostra que militância e ciência não são caminhos separados na história surda brasileira. Foram, no caso dela, a mesma luta em dois idiomas: o da política e o da pesquisa.
