A surdez não tem causa única. Ela pode nascer com a pessoa, chegar depois de uma infecção na infância, surgir de anos de exposição a ruído no trabalho ou aparecer devagar com o passar do tempo. Conhecer as principais causas de surdez ajuda a identificar o problema cedo, tratar o que é tratável e, sobretudo, garantir acesso à língua desde os primeiros anos de vida. A Organização Mundial da Saúde estima que 430 milhões de pessoas convivam hoje com perda auditiva incapacitante e projeta mais de 700 milhões em 2050, uma em cada dez pessoas no mundo.
Condutiva, neurossensorial ou mista: os três tipos de perda auditiva
Antes de falar das causas, vale entender como a audiologia classifica a perda auditiva. A divisão leva em conta onde fica a lesão, e é ela que define, na maioria dos casos, se existe tratamento clínico ou cirúrgico possível:
- Perda auditiva condutiva: há um impedimento mecânico à passagem das ondas sonoras pela orelha externa (canal auditivo) ou pela orelha média (membrana timpânica e cadeia de ossículos: martelo, bigorna e estribo). Costuma ser tratável com medicação ou cirurgia;
- Perda auditiva neurossensorial: resulta de dano às células ciliadas da cóclea, na orelha interna, ou às fibras do nervo vestibulococlear, o VIII par craniano. É a forma mais comum de perda permanente;
- Perda auditiva mista: combina os dois mecanismos na mesma orelha.
Cada causa descrita adiante se encaixa em um desses tipos. A rolha de cerúmen, por exemplo, produz perda condutiva e reversível; a exposição a ruído produz perda neurossensorial e definitiva.
Os graus da perda auditiva
Tipo e grau são coisas diferentes. O grau mede a intensidade da perda em decibéis (dB), a partir da média dos limiares obtidos na audiometria. A classificação da OMS, revista em 2021, usa como base a orelha que ouve melhor:
- Leve: de 20 a 34 dB;
- Moderada: de 35 a 49 dB;
- Moderadamente severa: de 50 a 64 dB;
- Severa: de 65 a 79 dB;
- Profunda: de 80 a 94 dB;
- Perda total ou quase total: a partir de 95 dB.
A OMS considera incapacitante a perda acima de 35 dB na melhor orelha. No Brasil, o critério legal é outro: o Decreto nº 5.626, de 2005, define deficiência auditiva como a perda bilateral, parcial ou total, de 41 dB ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 3.000 Hz.
1 - Envelhecimento (presbiacusia)
A presbiacusia é o declínio progressivo e bilateral da audição causado pelo envelhecimento das estruturas da cóclea e das vias auditivas centrais. As alterações começam de forma sutil ainda na meia-idade, mas a repercussão no dia a dia costuma aparecer mais tarde: entre as pessoas com mais de 60 anos, mais de 25% têm perda auditiva incapacitante, segundo a OMS.
A marca típica é a queda nas frequências agudas. Isso prejudica a percepção das consoantes de alta frequência, como /s/, /f/ e /t/, e atrapalha a compreensão da fala principalmente em ambientes ruidosos, quando várias pessoas falam ao mesmo tempo. É o clássico "eu ouço, mas não entendo". Aparelhos de amplificação e treinamento auditivo trazem ganho expressivo de qualidade de vida nesses casos.
2 - Exposição a ruído (PAIR)
A Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) é uma das causas mais frequentes e, ao mesmo tempo, das mais evitáveis. Ela resulta da exposição prolongada a níveis elevados de pressão sonora ou de um trauma acústico súbito, como uma explosão. No Brasil, o Anexo 1 da NR-15 fixa o limite de tolerância ocupacional em 85 dB(A) para até 8 horas diárias, reduzindo o tempo permitido conforme o ruído aumenta.
O ruído sobrecarrega e destrói as células ciliadas externas da cóclea, que não se regeneram. No audiograma, a lesão aparece como uma queda característica entre 3.000 Hz e 6.000 Hz, o chamado entalhe acústico em 4.000 Hz, muitas vezes acompanhada de zumbido persistente.
O risco deixou de ser apenas ocupacional. A OMS calcula que mais de 1 bilhão de jovens estejam expostos a perda auditiva permanente e evitável por práticas de escuta insegura, sobretudo fones de ouvido em volume alto e ambientes de lazer barulhentos.
3 - Infecções (otites, meningite e infecções congênitas)
Infecções virais e bacterianas comprometem tanto a orelha média quanto a orelha interna, e respondem por boa parte da surdez adquirida na infância:
- Otite média: o acúmulo de secreção na cavidade timpânica trava a movimentação dos ossículos e causa perda condutiva temporária. Quando se torna crônica ou supurativa, pode perfurar a membrana timpânica e deixar sequela permanente;
- Meningite bacteriana: é uma das principais causas de surdez neurossensorial adquirida em crianças e pode evoluir para ossificação da cóclea, o que reduz a janela de tempo disponível para intervenções;
- Infecções congênitas: citomegalovírus (CMV), rubéola, toxoplasmose e sífilis. O CMV congênito é hoje reconhecido como a principal causa não genética de perda auditiva neurossensorial na infância.
Boa parte desse grupo é evitável. Vacinação contra rubéola e meningite, pré-natal adequado e tratamento precoce da otite média estão entre as medidas de prevenção recomendadas pela OMS.
4 - Alterações da tireoide e causas metabólicas
O funcionamento da cóclea depende de um equilíbrio fino de líquidos e íons, e o hormônio tireoidiano participa desse metabolismo. Daí a associação, conhecida há décadas, entre distúrbios da tireoide e audição. Vale distinguir o que está bem estabelecido do que é apenas associação descrita:
- Síndrome de Pendred: é o caso bem estabelecido. Trata-se de uma condição genética autossômica recessiva, ligada ao gene SLC26A4, que combina alteração da tireoide (bócio), perda auditiva neurossensorial e dilatação do aqueduto vestibular. Por ser de origem genética, ela também pertence ao item 7 deste artigo;
- Hipotireoidismo, doença de Graves e tireoidite de Hashimoto: a literatura descreve associação com queda de limiares auditivos, zumbido e vertigem, mas o mecanismo não está totalmente esclarecido e a relação de causa e efeito segue em estudo.
Na prática, o que importa é que uma queixa auditiva em quem já trata a tireoide merece avaliação audiológica, em vez de ser atribuída de imediato a estresse ou cansaço.
5 - Medicamentos ototóxicos
Ototoxicidade é o dano, temporário ou permanente, causado à orelha interna por substâncias farmacológicas. Em geral são medicamentos indispensáveis, o que torna o acompanhamento audiológico durante o tratamento parte do cuidado:
- Antibióticos aminoglicosídeos: amicacina, gentamicina, tobramicina e estreptomicina têm efeito cumulativo sobre as células ciliadas da cóclea;
- Quimioterápicos à base de platina: cisplatina e carboplatina provocam com frequência perda neurossensorial bilateral, começando pelas frequências agudas;
- Diuréticos de alça: furosemida e ácido etacrínico, em altas doses por via intravenosa, afetam temporariamente a estria vascular da cóclea;
- Salicilatos e anti-inflamatórios: doses elevadas de ácido acetilsalicílico causam zumbido e rebaixamento auditivo em geral reversíveis com a suspensão.
O uso racional de medicamentos é apontado pela OMS entre as estratégias de prevenção da perda auditiva. Nenhum desses remédios deve ser suspenso por conta própria: a conduta é conversar com quem prescreveu.
6 - Perfuração do tímpano e traumas
A membrana timpânica precisa estar íntegra para captar as vibrações sonoras e transmiti-las aos ossículos. As perfurações costumam ter quatro origens:
- Introdução de objetos e hastes flexíveis de algodão no canal auditivo;
- Barotrauma, por mudança brusca de pressão em voos e mergulhos;
- Traumatismo craniano com fratura do osso temporal;
- Pressão causada por otite média aguda supurativa.
Os sinais são dor súbita, sangramento pelo ouvido, zumbido e perda auditiva condutiva. A maioria das pequenas perfurações fecha sozinha em algumas semanas; lesões extensas podem exigir timpanoplastia.
7 - Causas genéticas e surdez congênita
A surdez congênita é a que está presente ao nascimento. Mais da metade dos casos tem origem genética, e esse grupo se divide em três frentes:
- Surdez não sindrômica: responde pela maior parte dos casos genéticos e ocorre isoladamente, sem outras alterações clínicas. A causa mais frequente é a mutação no gene GJB2, que codifica a proteína conexina 26, essencial à circulação de íons potássio na cóclea;
- Surdez sindrômica: vem acompanhada de outras manifestações, como na síndrome de Usher (surdez e retinose pigmentar), na síndrome de Waardenburg (alterações de pigmentação e surdez) e na síndrome de Jervell e Lange-Nielsen (surdez e arritmias cardíacas);
- Malformações da orelha interna: displasia de Mondini e aplasia de Michel, entre outras.
Nesse grupo, o tempo é o fator decisivo. Não porque a surdez precise ser "corrigida", mas porque o acesso precoce a uma língua, a Libras em primeiro lugar, é o que garante o desenvolvimento linguístico e cognitivo da criança na idade certa.
8 - Obstruções e perdas transitórias
Nem toda perda de audição é permanente. Alguns quadros se resolvem por completo com uma intervenção clínica simples e, por isso, não devem ser confundidos com surdez:
- Rolha de cerúmen: o acúmulo de cera oclui o canal auditivo externo e barra a passagem do som até o tímpano. A remoção deve ser feita por profissional, nunca com hastes de algodão;
- Disfunção da tuba auditiva: resfriados, sinusites e rinites alérgicas alteram a ventilação da orelha média e geram a sensação de ouvido tapado;
- Corpos estranhos no conduto: água ou pequenos objetos, situação comum em crianças.
Outras causas menos frequentes
Fora das oito principais, existem condições que aparecem com menos frequência, mas pesam no diagnóstico diferencial e merecem atenção:
- Surdez súbita idiopática: perda neurossensorial que se instala em minutos, horas ou poucos dias, unilateral na quase totalidade dos casos e frequentemente acompanhada de zumbido. É urgência otorrinolaringológica, porque o resultado do tratamento depende da rapidez do atendimento;
- Doença de Ménière: episódios de vertigem intensa, zumbido, sensação de pressão na orelha e perda auditiva flutuante;
- Otosclerose: alteração óssea da orelha média que enrijece o estribo e produz perda condutiva ou mista, muitas vezes com início na idade adulta jovem;
- Schwannoma vestibular: tumor benigno do VIII par craniano, causa clássica de perda auditiva assimétrica com zumbido de um lado só;
- Neuropatia auditiva: a cóclea responde ao som, mas o sinal chega desorganizado ao cérebro, o que explica audiogramas razoáveis com compreensão de fala ruim.
Prevenção e diagnóstico precoce
A OMS calcula que quase 60% das perdas auditivas na infância decorram de causas evitáveis. No Brasil, três frentes concentram essa prevenção.
A primeira é a triagem auditiva neonatal, o teste da orelhinha, obrigatório e gratuito em todas as maternidades desde a Lei nº 12.303, de 2010. O exame é rápido, indolor e feito idealmente antes da alta hospitalar. Resultado alterado não significa diagnóstico fechado: significa que a criança precisa seguir para avaliação completa.
A segunda é a saúde no trabalho, com os programas de conservação auditiva, a medição do ruído e o uso correto de protetor auricular nas atividades acima do limite da NR-15.
A terceira é a escuta segura no lazer: reduzir o volume dos fones, limitar o tempo de exposição e fazer pausas em ambientes muito barulhentos. A célula ciliada destruída não se regenera, e é justamente por isso que a prevenção vale mais do que qualquer tratamento.
Da audiometria à identidade: surdez e Libras
Todo este artigo trata de causas, decibéis e diagnósticos, que é o olhar da área da saúde. Ele não esgota o assunto, porque ser surdo não se resume a um audiograma.
O próprio Decreto nº 5.626, de 2005, faz essa distinção. Ele define deficiência auditiva por um critério de perda em decibéis, mas define pessoa surda de outro modo: é quem, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais e manifesta sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais. Duas pessoas com o mesmo audiograma podem, portanto, se identificar de formas completamente diferentes.
Saber a causa importa para tratar o que é tratável, prevenir o que é evitável e orientar a família. Do ponto de vista de quem é surdo, porém, o que muda a vida é o acesso à língua, à escola e à comunicação. Por isso vale conhecer também o que é surdez do ponto de vista social, por que a expressão surdo-mudo está errada e a trajetória de surdos famosos que construíram história em áreas muito diferentes.
O acompanhamento periódico com otorrinolaringologista e fonoaudiólogo garante o diagnóstico no tempo certo. A escolha sobre como viver a surdez, essa é de cada pessoa e de sua família.

































