O Segundo Congresso Internacional de Educadores de Surdos, historicamente conhecido como o Congresso de Milão, realizou-se entre 6 e 11 de setembro de 1880 na Itália. Marcado pela imposição autoritária do oralismo puro e pela proibição formal das línguas de sinais nas escolas de quase todo o mundo ocidental, o evento inaugurou um século de opressão linguística cujas consequências pedagógicas e socioculturais foram combatidas por gerações de comunidades surdas.
O Contexto Histórico de 1880
No final do século XIX, a Europa e as Américas vivenciavam uma disputa acirrada entre duas correntes pedagógicas: a corrente gestual/bilíngue (herdeira da metodologia do Abade Charles-Michel de l'Épée e consolidada nos Estados Unidos por Thomas Gallaudet e Laurent Clerc) e a corrente oralista pura (derivada dos métodos de Samuel Heinicke e Jacob Rodrigues Pereira, que defendia a fala articulada como única via legítima de humanização e pensamento).
Para selar a hegemonia do método oral, defensores do oralismo organizaram a conferência em Milão através da Sociedade Pereire (Société Péreire), financiada por banqueiros franceses. O congresso reuniu 164 delegados de diversos países, dos quais a grande maioria (cerca de sete oitavos) era composta por clérigos e educadores italianos e franceses previamente alinhados ao oralismo.
A representatividade das próprias pessoas surdas foi intencionalmente suprimida: entre todos os participantes, havia apenas um delegado surdo com direito a voto, o norte-americano James Denison.
O Debate e a Resistência da Delegação Americana
Durante as sessões, os oradores oralistas : liderados por Giulio Tarra e o abade Balestra : utilizaram discursos de forte apelo moral e religioso, alegando que "a palavra viva é o privilégio do homem e o único instrumento capaz de elevar a alma a Deus", rotulando as línguas de sinais como primitivas e animalescas.
A resistência técnica foi liderada pela delegação dos Estados Unidos, encabeçada por Edward Miner Gallaudet (fundador do que viria a ser a Universidade Gallaudet), acompanhado por Thomas Gallaudet Jr., Isaac Lewis Peet e Richard Elliott (da Grã-Bretanha). Eles defenderam com veemência o método combinado e o direito inalienável dos surdos de serem instruídos em sua língua natural. No entanto, em votações amplamente manipuladas pela organização, a maioria ouvinte aprovou o banimento dos sinais.
As Oito Resoluções do Congresso de Milão
As deliberações oficiais de Milão consagraram o oralismo como dogma institucional:
- Declaração de Superioridade da Fala: O congresso declara que a fala articulada tem incontestável superioridade sobre os sinais para restituir o surdo à sociedade e proporcionar maior domínio da língua;
- Banimento dos Sinais: O uso simultâneo de gestos e fala prejudica a leitura labial, a precisão e a pureza da articulação, devendo o método puramente oral ser adotado com exclusividade;
- Obrigação Estatal de Ensino: Reconhece que os governos devem assegurar a educação de todas as crianças surdas;
- Método Intuitivo de Ensino: O ensino deve basear-se na associação direta da fala com a escrita e objetos, evitando qualquer mediação por sinais;
- Produção de Livros Didáticos: Estabelece que os professores do método oral devem produzir materiais específicos para o treinamento da fala;
- Manutenção da Fala na Vida Adulta: Afirma que os egressos das escolas orais mantêm e aprimoram a fala na vida adulta através da convivência social;
- Idade e Duração Escolar: Recomenda o ingresso entre 8 e 10 anos de idade e duração de 7 a 8 anos de escolarização em turmas de até 10 alunos;
- Transição Gradual: Determina que as escolas que utilizavam sinais realizem a substituição progressiva pelo método puramente oral.
Pintura "Milão 1880 em cima da mesa" de Nancy Rourke, artista surda norte-americana. A obra retrata a imposição do oralismo e a resistência dos delegados pró-língua de sinais. Fonte: nancyrourke.comO Século de Opressão e seus Impactos Devastadores (1880-1980)
As consequências do Congresso de Milão foram catastróficas para a educação e a cultura surda mundial:
- Exclusão de Professores Surdos: Docentes e instrutores surdos foram sumariamente demitidos ou rebaixados a funções manuais e de zeladoria em instituições de toda a Europa e das Américas;
- Queda nos Índices de Letramento e Aprendizagem: As salas de aula transformaram-se em espaços de exaustivo e repetitivo treino vocal e leitura labial mecânica, em detrimento do conteúdo curricular das ciências, história, matemática e literatura;
- Punições e Sofrimento Físico: Alunos surdos sofriam castigos corporais, com as mãos amarradas para que não gesticulassem;
- Resistência Clandestina: Apesar da proibição legal, as crianças e jovens surdos continuaram sinalizando secretamente nos dormitórios, pátios e banheiros dos internatos, mantendo vivas suas línguas de sinais e fundando associações comunitárias autônomas fora do alcance escolar.
No Brasil, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) resistiu inicialmente, mas acabou sendo obrigado a adotar oficialmente o oralismo exclusivo a partir de 1911, mantendo essa diretriz por décadas até a retomada dos estudos linguísticos da Libras no final do século XX.
A Retratação Histórica de Vancouver (ICED 2010)
Somente 130 anos após o infame congresso, a comunidade científica e educacional internacional realizou uma reparação histórica formal.
Em julho de 2010, durante o 21º Congresso Internacional de Educação de Surdos (ICED), realizado em Vancouver, no Canadá, o plenário aprovou por aclamação a resolução "A New Era : Deaf Participation and Collaboration". O documento repudiou formalmente todas as oito resoluções de Milão de 1880, pediu desculpas oficiais à comunidade surda mundial pelos danos causados pelo oralismo obrigatório e conclamou todas as nações a garantirem a Educação Bilíngue com pleno respeito às línguas de sinais.
História em Quadrinhos : "O Congresso de Milão"
A história e as repercussões do Congresso de Milão foram registradas na belíssima História em Quadrinhos bilíngue intitulada "O Congresso de Milão", de autoria da Profa. Dra. Kelly Priscilla Lóddo Cezar e de Luiz Gustavo Paulino de Almeida.
A obra acompanha a trajetória do personagem Marcelo, um jovem surdo usuário de Libras que, ao revisitar as diferentes épocas históricas da educação de surdos, compreende a magnitude da resistência de seus antepassados e reafirma o orgulho de pertencer à cultura surda e de expressar seu pensamento por meio da língua de sinais.

























