A audição dos animais revela soluções evolutivas que vão muito além do que o ouvido humano alcança. Enquanto nós ficamos numa faixa estreita de frequências, outras espécies caçam no escuro absoluto pelo som, conversam por vibrações que atravessam o chão ou escutam frequências quinze vezes mais agudas do que qualquer coisa que possamos ouvir.
Costuma-se dizer que a audição humana vai de 20 Hz a 20.000 Hz (20 kHz). Os pesquisadores Henry e Rickye Heffner, que compararam audiogramas de dezenas de espécies, lembram que esse é um valor nominal: medida no critério comparativo usado com animais, a 60 dB, a faixa humana real fica entre 31 Hz e 17,6 kHz, e só um ouvido jovem e sem lesão chega perto dos 20 kHz. É esse o ponto de partida para as comparações a seguir.
Audição felina: orelhas móveis e alta sensibilidade
O gato doméstico tem uma das faixas auditivas mais amplas entre os mamíferos. Medições comportamentais feitas por Rickye e Henry Heffner mostram que a audição do gato se estende de 48 Hz a 85 kHz, ou seja, ele acompanha os graves que nós ouvimos e ainda alcança ultrassons muito acima do nosso teto.
Essa amplitude é incomum. O normal, na evolução dos mamíferos, é que ganhar sensibilidade para agudos custe a perda dos graves. O gato conseguiu estender a audição de alta frequência sem abrir mão da baixa, o que faz sentido para um caçador que precisa detectar tanto o roçar quanto os guinchos ultrassônicos de pequenos roedores.
A anatomia externa contribui: o pavilhão auricular é móvel e cada orelha se orienta de forma independente, funcionando como um funil direcional que o animal aponta para a fonte do som sem precisar virar o corpo.
Gatos brancos de olhos azuis e a surdez congênita
A associação entre pelagem branca, olhos azuis e surdez em gatos é um caso clássico de um mesmo gene produzindo efeitos em lugares diferentes do corpo. A causa é o gene dominante W (do inglês White), que impede a migração e a sobrevivência dos melanoblastos, células precursoras dos melanócitos, durante o desenvolvimento embrionário.
Não se trata de albinismo, que é uma falha na produção do pigmento. Aqui as células pigmentares simplesmente não chegam ao destino. E os melanócitos não servem só para dar cor: no ouvido interno eles compõem a stria vascularis da cóclea, estrutura que mantém as condições elétricas necessárias para as células ciliadas converterem vibração em impulso nervoso. Sem melanócitos ali, o tecido degenera nas primeiras semanas de vida e a perda auditiva é neurossensorial e definitiva.
Os dados reunidos pelo laboratório de surdez animal da Louisiana State University, referência no assunto, mostram a força dessa associação em gatos brancos: a prevalência de surdez fica em torno de 17% nos que não têm olhos azuis, 40% nos que têm um olho azul e 85% nos que têm os dois olhos azuis.
Gatos surdos se adaptam bem à vida doméstica, orientando-se por vibração, visão e olfato. Por outro lado, a falta de pigmento na pele torna esses animais muito mais suscetíveis a lesões causadas pelo sol, o que recomenda mantê-los protegidos em ambientes internos.
Coruja-das-torres: caçar no escuro só de ouvido
Se existe um recordista de precisão auditiva, é a coruja-das-torres (Tyto alba). Em experimentos clássicos publicados por Roger Payne no Journal of Experimental Biology, corujas capturaram presas na escuridão total, guiadas apenas pelo som, com erro menor que 1 grau tanto na horizontal quanto na vertical. Os testes mostraram que elas dependem principalmente de frequências acima de 5 kHz.
O segredo está na assimetria. As aberturas dos ouvidos da coruja-das-torres ficam em alturas diferentes no crânio, uma voltada mais para cima e outra mais para baixo. Com isso, um som vindo de baixo chega com intensidades diferentes em cada ouvido, e essa diferença informa a elevação da presa.
A direção horizontal vem de outro cálculo: a diferença de tempo entre a chegada do som a cada ouvido. Como explicam Singheiser, Gutfreund e Wagner, a coruja combina dois mapas independentes, um de tempo e outro de intensidade, e do cruzamento deles nasce um mapa bidimensional do espaço sonoro. O disco facial, aquele conjunto de penas em forma de coração, funciona como refletor que concentra o som nas aberturas.
Audição e mecanorrecepção em tubarões
Tubarões e outros elasmobrânquios não têm orelha externa alguma. O sistema auditivo se resume a um ouvido interno alojado no crânio cartilaginoso, com canais semicirculares e câmaras otolíticas, ligado ao exterior por poros minúsculos.
Como o som viaja cerca de quatro a cinco vezes mais rápido na água do que no ar, as ondas de baixa frequência atravessam o corpo do animal, que é praticamente transparente ao som, e chegam direto às estruturas sensoriais. A faixa audível dos tubarões vai aproximadamente de 10 Hz a 800 Hz, com maior sensibilidade abaixo de 375 Hz.
Estudos comportamentais em mar aberto, conduzidos por pesquisadores como Donald Nelson e Arthur Myrberg, mostraram que o que mais atrai tubarões são sons pulsados e irregulares de baixa frequência, na faixa de 25 a 100 Hz, o tipo de ruído que um peixe ferido ou em fuga produz. Sons contínuos, ou de frequência mais alta, não têm o mesmo efeito.
Ao ouvido interno somam-se dois outros sistemas. O sistema de linha lateral é uma rede de canais sob a pele com células ciliadas que captam vibração e deslocamento de água, funcionando como um tato à distância. E as ampolas de Lorenzini, concentradas no focinho, detectam os campos elétricos gerados pela musculatura e pelo coração de presas escondidas na areia.
Ecolocalização: enxergar com o ouvido
Ecolocalização, ou biossonar, é emitir som e interpretar o eco que volta, montando com isso uma imagem do que está em volta. É o mais próximo que a natureza chegou de enxergar pelo ouvido.
- Morcegos: emitem pulsos ultrassônicos pela laringe ou pelas narinas. O cérebro extrai do eco o tempo de retorno, que dá a distância, a alteração de frequência pelo efeito Doppler, que dá a velocidade da presa, e a qualidade do eco, que sugere tamanho e textura. Algumas espécies chegam a emitir chamados com conteúdo de frequência de até 212 kHz;
- Golfinhos: produzem cliques nos lábios fônicos, dentro das vias nasais, e focalizam o feixe através do melão, a estrutura gordurosa da testa. O eco retorna pela mandíbula inferior, também preenchida de gordura, que o conduz ao ouvido interno;
- Outros: formas mais simples de ecolocalização aparecem em aves de caverna, como o guácharo, e em pequenos mamíferos como musaranhos.
Pessoas cegas também desenvolvem ecolocalização, com estalos de língua e ruído dos passos, recrutando áreas do córtex visual para montar o mapa do ambiente. É um lembrete de que o cérebro reorganiza o que recebe, tema que também aparece na visão das pessoas surdas.
A traça que ouve mais agudo do que qualquer animal
A corrida armamentista entre morcegos e mariposas produziu o recordista absoluto de frequência. Em 2013, Hannah Moir, Joseph Jackson e James Windmill, da Universidade de Strathclyde, mostraram que a traça-da-cera (Galleria mellonella) responde a frequências que se aproximam de 300 kHz, a maior sensibilidade auditiva já registrada em um animal.
Para chegar a esse número, a equipe combinou vibrometria a laser, que mede o movimento da membrana timpânica, com registro elétrico do nervo auditivo. Grupos anteriores tinham parado de testar por volta dos 100 kHz, presumindo que ali estivesse o teto.
O detalhe interessante é a margem: o morcego mais agudo conhecido chega a 212 kHz, e a traça ouve bem acima disso. Ela está, nas palavras dos próprios autores, pronta para qualquer nova jogada que o morcego venha a inventar. Tudo isso num ouvido de estrutura simples, com poucas células sensoriais, do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Elefantes e baleias: o extremo grave do espectro
No outro extremo estão os infrassons, abaixo do limite humano. O elefante é um dos poucos mamíferos com audição de graves melhor que a nossa, com limite inferior medido em torno de 17 Hz, e se comunica em frequências de aproximadamente 10 a 20 Hz que percorrem grandes distâncias.
Mais curioso é o segundo canal. Parte dessas vibrações viaja pelo solo, e o elefante as capta pelos pés, de onde sobem pelos ossos das pernas até o ouvido interno. É condução óssea, o mesmo princípio usado em certos aparelhos auditivos para pessoas com perda de audição.
Um estudo publicado em 2026 na Frontiers in Audiology and Otology, conduzido por Caitlin O'Connell-Rodwell, Sunil Puria e colegas, mediu ossos temporais de elefantes com laser e encontrou ossículos cerca de nove vezes mais pesados e tímpanos sete vezes maiores que os humanos. Os autores calculam que a capacidade de fechar voluntariamente o canal auditivo, que os elefantes têm e nós não, pode ampliar em até trinta vezes a audição por via óssea nas frequências infrassônicas. Os sinais sísmicos chegam a mais de 10 km.
Nos oceanos, as baleias de barbatana ocupam faixa parecida. Registros do programa de acústica do NOAA descrevem as vocalizações da baleia-azul do Atlântico como gemidos de banda estreita em torno de 19 Hz, com cerca de 16 segundos de duração. Sons tão graves se propagam por centenas e até milhares de quilômetros no canal SOFAR, uma camada do oceano em que a perda de energia é mínima.
O que isso ensina sobre ouvir
Percorrendo essas espécies, fica claro que não existe uma audição melhor, e sim audições ajustadas a problemas diferentes: caçar no escuro, achar comida enterrada, escapar de um predador, conversar a dez quilômetros. Cada solução tem seu preço e seu limite.
Vale notar quantos desses animais não dependem apenas do ar para ouvir. O tubarão recebe o som pelo corpo inteiro, o elefante escuta pelos ossos, o gato aponta o pavilhão como uma antena. Ouvir, na natureza, é uma questão de por onde a vibração chega. Para entender como isso se organiza nos seres humanos, veja o que é surdez.








