O que significa Libras?
Libras é a sigla oficial da Língua Brasileira de Sinais, a língua natural de modalidade visual-espacial utilizada pela comunidade surda no Brasil. Reconhecida oficialmente pela Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002, e regulamentada pelo Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, a Libras possui sistema linguístico autônomo, com gramática, fonologia, morfologia e sintaxe próprias, configurando um patrimônio cultural e um instrumento indispensável de cidadania e inclusão social.
O que é uma Língua de Sinais?
Para compreender o que é Libras, é fundamental entender previamente o conceito de língua de sinais. Diferente das línguas orais-auditivas, cuja emissão ocorre pelo aparelho fonador e a recepção pela audição, as línguas de sinais realizam-se pelo canal espaço-visual: a produção se dá por meio dos movimentos das mãos, do corpo e das expressões faciais, enquanto a percepção se processa inteiramente pela visão.
Durante muito tempo, acreditou-se erroneamente que a comunicação dos surdos resumia-se a mímicas rudimentares ou gestos soltos. No entanto, pesquisas linguísticas iniciadas na década de 1960 pelo linguista William Stokoe e consolidadas no Brasil por autoras como Lucinda Ferreira Brito, Ronice Quadros e Lodenir Karnopp comprovaram que as línguas de sinais satisfazem todos os critérios de um sistema linguístico pleno e de alta complexidade.
Por meio da língua de sinais, qualquer indivíduo é capaz de formular pensamentos abstratos, discutir filosofia, ciência, artes, sentimentos e conceitos técnicos com o mesmo grau de sofisticação e precisão possibilitado por qualquer língua falada no mundo.
A Língua de Sinais é Universal?
Um dos mitos mais frequentes sobre as comunidades surdas é a suposição de que existiria uma única língua de sinais compartilhada universalmente em todo o planeta. Assim como as nações desenvolveram línguas orais distintas ao longo de sua história (como português, inglês, japonês ou francês), as comunidades surdas de cada país também construíram suas próprias línguas de sinais de forma espontânea, orgânica e culturalmente situada.
Portanto, a língua de sinais do Brasil não é idêntica à de Portugal, à dos Estados Unidos ou à da França. Cada uma reflete a história, a identidade e a cultura de sua respectiva comunidade surda. Veja abaixo alguns exemplos de siglas e denominações de línguas de sinais pelo mundo:
Libras : Língua Brasileira de Sinais |
LGP : Língua Gestual Portuguesa |
SLN / NGT : Língua de Sinais dos Países Baixos |
ASL : American Sign Language (Língua de Sinais Americana) |
LSA : Lengua de Señas Argentina |
BSL : British Sign Language (Língua de Sinais Britânica) |
LSCH : Lengua de Señas Chilena |
LSF : Langue des Signes Française (Língua de Sinais Francesa) |
Mesmo entre países que compartilham o mesmo idioma falado oficial, as línguas de sinais podem ser completamente diferentes. Um exemplo clássico ocorre entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha: enquanto ambos têm o inglês como língua oral predominante, a ASL (americana) e a BSL (britânica) pertencem a famílias linguísticas distintas e são mutuamente ininteligíveis. A ASL compartilha raízes históricas com a LSF (francesa), ao passo que a BSL utiliza inclusive um sistema de alfabeto datilológico bimanual totalmente diferente.
Origem e História da Libras no Brasil
A história da Língua Brasileira de Sinais está intrinsecamente ligada à fundação da primeira instituição voltada à educação de surdos no país. Em 26 de setembro de 1857, no Rio de Janeiro, sob o reinado do imperador Dom Pedro II, foi inaugurado o Imperial Instituto de Meninos Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).
Para dirigir a instituição, foi convidado o professor surdo francês Ernest Huet (Édouard Huet). Huet trouxe consigo a antiga Língua de Sinais Francesa (LSF) desenvolvida pelo Abade Charles-Michel de l'Épée no século XVIII. No Brasil, o contato da LSF com os sinais e sistemas de comunicação já praticados de forma autóctone pelos surdos brasileiros originou uma nova língua, rica e adaptada à realidade sociocultural brasileira: a Libras.
Ao longo das décadas seguintes, estudantes de diversas províncias brasileiras formaram-se no INES e regressaram às suas regiões de origem, disseminando a Libras por todo o território nacional e fortalecendo as associações e comunidades surdas locais.
Estrutura Linguística da Libras
Assim como as línguas faladas são compostas por fonemas que se combinam para formar morfemas, palavras e frases, a Libras possui níveis linguísticos estruturados em sua totalidade:
1. Fonologia (Os Cinco Parâmetros da Libras): Os sinais não são unidades indivisíveis. Cada sinal é formado pela combinação simultânea de cinco parâmetros fundamentais:
- Configuração de Mão (CM): O formato específico que a mão assume ao produzir o sinal (existem dezenas de configurações catalogadas).
- Ponto de Articulação ou Localização (PA): O local no corpo do sinalizador (como testa, queixo, peito) ou no espaço neutro à sua frente onde o sinal é articulado.
- Movimento (M): A direção, trajetória, velocidade e tipo de movimento executado (retilíneo, circular, sinuoso, contínuo ou com paradas bruscas).
- Orientação da Palma (O): A direção para a qual a palma da mão está voltada durante a sinalização (para cima, para baixo, para dentro, para fora, para a direita ou esquerda).
- Expressões Não Manuais (ENM): Os movimentos faciais (olhos, sobrancelhas, boca, bochechas) e corporais (inclinação do tronco e da cabeça) que desempenham papel gramatical crucial, diferenciando tipos de frases (interrogativas, afirmativas, exclamativas, negativas) e marcando graus de intensidade.
A alteração de um único desses cinco parâmetros pode modificar inteiramente o significado de um sinal ou torná-lo incompreensível, exatamente como a troca de uma única letra ou fonema altera o sentido de uma palavra na língua oral (como nas palavras "pato" e "gato").
2. Morfologia e Sintaxe: Na Libras, os itens lexicais são chamados de sinais. A língua apresenta processos morfológicos ricos, como a incorporação de negação, a direcionalidade de verbos (onde o sentido do movimento indica quem realiza e quem recebe a ação) e os classificadores, que descrevem formas, tamanhos, tipos de superfícies e a movimentação espacial de objetos e seres vivos.
Sintaticamente, a Libras opera comumente pela estrutura de Tópico-Comentário, estabelecendo primeiro o contexto central do assunto no espaço visual para em seguida tecer o comentário sobre ele, organizando os elementos no espaço tridimensional com regras gramaticais rigorosas e independentes da língua portuguesa.
Regionalismos e Variação Linguística
Por ser uma língua viva e dinâmica, utilizada diariamente por milhares de falantes em um país com dimensões continentais, a Libras apresenta rica variação linguística. Existem regionalismos marcantes entre os diferentes estados e regiões do Brasil, com variações em sinais para cores, frutas, estados, gírias e expressões cotidianas.
Além das variações regionais (diatópicas), a Libras registra variações sociais e geracionais (diacrônicas), onde sinais mais antigos evoluem naturalmente para formas mais práticas ou modernas, comprovando a vitalidade constante da comunidade linguística surda brasileira.
O Marco Legal da Libras no Brasil
A conquista dos direitos linguísticos da comunidade surda brasileira é fruto de décadas de mobilização social e política liderada por lideranças surdas e entidades como a FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos):
• Lei Federal nº 10.436/2002: Sancionada em 24 de abril de 2002, a chamada Lei nº 10.436 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão da comunidade surda no Brasil, determinando que o poder público garanta formas institucionais de apoiar e difundir seu uso.
• Decreto nº 5.626/2005: Regulamentou a Lei da Libras, estabelecendo diretrizes claras para a inclusão obrigatória da disciplina de Libras em cursos de formação de professores (licenciaturas, pedagogia e educação especial) e fonoaudiologia, além de garantir o direito ao intérprete em serviços públicos e à educação bilíngue.
• Legislação de Tradução e Interpretação: A regulamentação da profissão de Tradutor e Intérprete de Libras e Guia-Intérprete foi formalizada pela Lei nº 12.319/2010 e ampliada pela Lei nº 14.704/2023, consolidando a atuação profissional desses especialistas.
• Lei Federal nº 14.191/2021: Marco histórico na legislação educacional, incluiu formalmente a Educação Bilíngue de Surdos como modalidade independente na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei nº 9.394/1996), assegurando a Libras como primeira língua (L1) de instrução e comunicação e o português na modalidade escrita como segunda língua (L2).
Para conhecer o histórico legislativo completo e as normas vigentes, consulte a seção dedicada a Leis e Normas sobre Libras e Surdez.
Mitos Comuns sobre a Libras
A popularização da Libras ainda enfrenta preconceitos e desinformações cotidianas que precisam ser esclarecidos:
- Mito 1 : "Libras é apenas mímica ou pantomima": Falso. A Libras é uma língua natural dotada de gramática estruturada e rica em todos os níveis linguísticos.
- Mito 2 : "Libras é o português soletrado com as mãos": Falso. O alfabeto manual (datilologia) é apenas um recurso ortográfico acessório utilizado para soletrar nomes próprios ou vocábulos técnicos sem sinal equivalente. A comunicação em Libras se dá por sinais conceituais próprios.
- Mito 3 : "Existe uma língua de sinais universal": Falso. Cada nação e comunidade surda possui sua própria língua de sinais, construída historicamente.
- Mito 4 : "Pessoas surdas são mudas": Falso. A grande maioria das pessoas surdas tem o aparelho fonador preservado e funcional. O termo correto é "pessoa surda" ou "surdo", devendo-se evitar expressões desatualizadas e inadequadas como "surdo-mudo".
Vídeos Compartilhados
Libras - Língua Brasileira de Sinais
Este vídeo, produzido para o Curso de Pedagogia Unesp / Univesp, mostra o que é, como surgiu e como funciona a Língua Brasileira de Sinais
O que é Libras?
Você sabe o que é Libras? Não?! Então confira esse vídeo com uma explicação bem detalhada
LIBRAS | O que é?
No YouTube da TV Justiça, a audiodescrição, tradução de imagens em áudio, está disponível para diversos programas, sempre com a identificação “audiodescrição” no título do vídeo. Mas a acessibilidade da TV Justiça não para por aí. As transmissões ao vivo das sessões plenárias, tanto no YouTube quanto no Twitter, contam com audiodescrição, Libras - a língua brasileira de sinais - e closed caption, também conhecido como legenda oculta, que pode ser acionado no canto direito da imagem.
O que é LIBRAS?
Nesse vídeo Paloma Bueno explica rapidamente o que é LIBRAS.
Libras: o que é esta língua?
Texto publicado na revista Roseta, da Associação Brasileira de Linguística. Autoras: Ronice Müller de Quadros e Marianne Rossi Stumpf
LIBRAS PARA TODOS - VOCÊ SABE O QUE É LIBRAS?
Veja neste episódio informações sobre a Língua Brasileira de Sinais, LIBRAS, e também os sinais que representam o alfabeto e os números. Apresentação: Mariana Ayelen Locução: Caroline Martins

Libras : Língua Brasileira de Sinais
LGP : Língua Gestual Portuguesa
SLN / NGT : Língua de Sinais dos Países Baixos
ASL : American Sign Language (Língua de Sinais Americana)
LSA : Lengua de Señas Argentina
BSL : British Sign Language (Língua de Sinais Britânica)
LSCH : Lengua de Señas Chilena
LSF : Langue des Signes Française (Língua de Sinais Francesa)

























