Abade Sicard
O educador que revolucionou o ensino para a comunidade surda
Abade Sicard - o sucessor de l'Épée que formou os professores surdos que mudaram o mundo
Gravura em cobre de Charles-Etienne Gaucher, a partir de um desenho de Joseph Jauffret, (Museu da Revolução Francesa).O abade Roch-Ambroise Cucurron Sicard foi o segundo diretor do histórico instituto de surdos de Paris e o elo entre o abade de l'Épée e a geração que espalhou a educação de surdos pelo mundo. Foi em sua escola, e sob sua direção, que se formaram os professores surdos Jean Massieu e Laurent Clerc, e foi uma demonstração pública sua, em Londres, que convenceu o americano Thomas Gallaudet a levar o método francês para os Estados Unidos. Sem Sicard, a corrente que liga Paris a Hartford, e mais tarde ao INES do Rio de Janeiro, não teria se formado.
Sicard nasceu em 1742, em Le Fousseret, perto de Toulouse, no sul da França, e formou-se padre. Em 1786, foi nomeado diretor de uma escola para surdos em Bordeaux, onde conheceu seu aluno mais brilhante: Jean Massieu, um jovem surdo de nascença que se tornaria seu assistente e, depois, o primeiro professor surdo do instituto de Paris.
O herdeiro do instituto de Paris
Com a morte de l'Épée, em dezembro de 1789, Sicard foi escolhido seu sucessor à frente da escola de Paris, assumindo a direção do que se tornaria o Instituto Nacional de Jovens Surdos. Levou consigo Massieu como professor assistente principal, gesto de enorme simbolismo: um surdo ensinando surdos na instituição mais importante do mundo em sua área.
Como intelectual, Sicard publicou obras que sistematizaram o método: a "Mémoire" sobre a arte de instruir os surdos de nascimento (1789) e a "Théorie des signes" (Teoria dos Signos, 1808-1814), catálogo monumental do vocabulário de sinais usado no ensino. Em 1795, foi eleito membro do Institut de France, o círculo intelectual mais prestigiado do país.
O alfabeto da língua de sinais francesa, com uma borda ornamentada; acima dele, o Abade C. M. de l'Épée e o Abade Sicard. Publicação do Institut Royal des sourds-muets : DesportesOs alunos que fizeram história
O legado mais duradouro de Sicard não está nos livros, mas nas pessoas que formou. Jean Massieu, seu discípulo de Bordeaux, tornou-se celebridade europeia nas demonstrações públicas do instituto. E foi Massieu quem ensinou o jovem Laurent Clerc, que entrou na escola aos 12 anos e se tornaria professor dela, formando o trio que representava o auge da educação de surdos da época.
O momento decisivo veio em 1815: Sicard viajou a Londres com Massieu e Clerc para uma série de demonstrações públicas do método. Na plateia estava Thomas Hopkins Gallaudet, o americano que buscava na Europa um caminho para educar os surdos de seu país. Impressionado, Gallaudet foi convidado a estudar no instituto de Paris e, de lá, levou Laurent Clerc para fundar, em 1817, a primeira escola para surdos dos Estados Unidos.
O elo de uma corrente que chega à Libras
Sicard morreu em Paris, em 1822. O instituto que dirigiu continuou formando gerações de professores surdos, entre eles Eduard Huet, que em 1857 fundaria o INES no Rio de Janeiro, trazendo para o Brasil a semente do que hoje é a Libras.
Sicard era ouvinte, e entra nas nossas Biografias como aliado histórico da comunidade surda. Seu papel resume o que um educador pode fazer de melhor: identificar talentos, formá-los e abrir espaço para que pessoas surdas assumissem elas mesmas o protagonismo do ensino, como fizeram Massieu, Clerc e toda a linhagem que veio depois.
