Charles-Michel de l'Épée
O visionário que abriu as portas da educação para os surdos
Abade de l'Épée - o "pai dos surdos" que fundou a primeira escola pública para surdos do mundo
O abade Charles-Michel de l'Épée é a figura fundadora da educação de surdos como a conhecemos. Chamado de "pai dos surdos", ele criou em Paris, em 1760, a primeira escola gratuita e pública para surdos do mundo, e fez algo ainda mais revolucionário para a época: em vez de tentar "consertar" os surdos obrigando-os a falar, partiu dos sinais que eles já usavam entre si. Toda a genealogia que leva à Libras, passando por Sicard, Clerc e Huet, o fundador do INES, começa nele.
l'Épée nasceu em 24 de novembro de 1712, em Versalhes, em uma família abastada, e estudou para ser padre católico. A vida dele mudou por acaso: em 1753, conheceu duas irmãs gêmeas surdas que se comunicavam entre si por sinais. Diante daquelas jovens sem acesso à educação nem à religião, o abade decidiu dedicar a vida à instrução das pessoas surdas.
Uma escola gratuita e aberta aos pobres
Em 1760, l'Épée abriu em sua própria casa, na rue des Moulins, em Paris, uma escola gratuita para surdos, aberta inclusive aos mais pobres, a primeira do mundo com essas características. Até então, a educação de surdos era privilégio de poucos filhos de famílias ricas, ensinados por preceptores particulares que guardavam seus métodos a sete chaves. l'Épée fez o oposto: ensinou publicamente, documentou seu método e o ofereceu a quem quisesse aprender.
Seu sistema, os chamados "sinais metódicos", partia dos gestos naturais que os próprios alunos surdos usavam, enriquecidos com marcações da gramática francesa para expressar conceitos abstratos. O detalhe mais importante costuma passar despercebido: foi l'Épée quem aprendeu com os surdos, não o contrário. Ele categorizou e registrou os sinais já existentes para poder ensiná-los a outros professores.
As demonstrações públicas e a fama europeia
Entre 1771 e 1772, l'Épée começou a realizar demonstrações públicas com seus alunos, em que surdos respondiam por escrito a perguntas formuladas em várias línguas. As sessões causaram sensação na Europa iluminista: em 1777, o imperador José II da Áustria visitou a escola, e educadores de vários países foram a Paris aprender o método, espalhando-o pelo continente. Em 1782, o abade publicou sua obra sobre "a verdadeira maneira de instruir os surdos-mudos", como se dizia na época, detalhando a abordagem.
O impacto ia além da sala de aula: com educação e escrita, pessoas surdas puderam pela primeira vez defender seus direitos legalmente, algo impensável até então.
Benfeitor da humanidade
l'Épée morreu em 23 de dezembro de 1789, aos 77 anos, nas primeiras semanas da Revolução Francesa, e foi sepultado na igreja de Saint-Roch, em Paris. O reconhecimento veio logo: em 1791, a Assembleia Nacional o declarou "Benfeitor da Humanidade", reconheceu os direitos das pessoas surdas à luz da Declaração dos Direitos do Homem e transformou sua escola no Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris, que existe até hoje.
Foi desse instituto que saíram os personagens seguintes da história: o abade Sicard, seu sucessor; os professores surdos Jean Massieu e Laurent Clerc, que levaram o método aos Estados Unidos; e Eduard Huet, o professor surdo que fundou o INES no Rio de Janeiro em 1857, dando origem à Libras.
Por que l'Épée está nas nossas Biografias
l'Épée era ouvinte, e está aqui como um dos grandes aliados da comunidade surda na história. Seu gesto fundamental, tratar os sinais dos surdos como ponto de partida e não como problema, antecipou em mais de dois séculos o que a linguística confirmaria: as línguas de sinais são línguas completas. Cada escola de surdos, cada curso de Libras e cada intérprete trabalhando hoje deve algo àquele padre de Versalhes que resolveu aprender com duas meninas surdas.
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Manuário - Charles L’Épée O Manuário conta a história de vida de um educador francês filantrópico que no século XVIII ficou conhecido como “Pai dos surdos”. Ele é Charles Michel de L’epée, fundador do Instituto Nacional de Surdos em Paris. Ele recebeu o título de “benfeitor da humanidade” da Assembleia Nacional Parisiense. Fonte: TV INES / LIBRAS



