O que é a Língua de Sinais Urubu-Ka'apor?
O povo Ka'apor (historicamente conhecido como Urubu-Ka'apor) é uma etnia indígena da família linguística Tupi-Guarani que habita a Terra Indígena Alto Turiaçu, no estado do Maranhão. Devido a uma expressiva incidência de surdez congênita na comunidade, o povo Ka'apor desenvolveu uma das mais fascinantes línguas de sinais indígenas do planeta: a Língua de Sinais Ka'apor Brasileira (LSKB), utilizada diariamente por toda a aldeia, tanto por indígenas surdos quanto por ouvintes.
História e Território do Povo Ka'apor
A autodenominação Ka'apor provém das raízes indígenas ka'a (mata, floresta) e por (habitante), significando literalmente "habitantes da mata". Estudos etno-históricos indicam que os Ka'apor migraram no século XIX a partir da região entre os rios Tocantins e Xingu em direção às bacias dos rios Gurupi e Turiaçu, fixando-se no noroeste do Maranhão.
Após séculos de resistência e conflitos territoriais com frentes de expansão e colonizadores não indígenas (denominados pelos Ka'apor de karaí), o povo estabeleceu relações pacíficas a partir de 1928 com a atuação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Atualmente, a população Ka'apor reside em dezenas de aldeias demarcadas na Terra Indígena Alto Turiaçu, preservando seus costumes tradicionais, agricultura de subsistência (mandioca-brava, milho, banana) e atividades ancestrais de caça, pesca e manejo florestal.
A Língua Falada e a Elevada Incidência de Surdez
A língua oral do povo é a língua Ka'apor, pertencente ao tronco Tupi e à família Tupi-Guarani, com características gramaticais singulares preservadas por seus falantes.
Ao longo de gerações, a comunidade registrou uma proporção elevada de surdez hereditária : historicamente estimada em aproximadamente 1 pessoa surda para cada 75 ouvintes, uma taxa significativamente superior às médias mundiais. Essa realidade comunitária não provocou segregação ou isolamento; ao contrário, estimulou a criação espontânea de um sistema linguístico visual compartilhado por todo o grupo.
A Língua de Sinais Ka'apor Brasileira (LSKB)
A LSKB (Língua de Sinais Ka'apor Brasileira) é uma legítima língua de sinais de aldeia (village sign language) com características linguísticas próprias e autônomas:
- Bilinguismo Comunitário: Todos os membros da aldeia : homens, mulheres, crianças e anciãos, ouvintes e surdos : aprendem a língua de sinais desde a infância, utilizando-a com naturalidade em assembleias, rituais, pescarias e no convívio familiar diário;
- Independência da Libras e do Português: A LSKB não deriva da Libras urbana nem da Língua Portuguesa. Trata-se de um sistema linguístico independente, com léxico e morfologia adaptados ao ecossistema amazônico;
- Ausência de Datilologia: Por ser uma língua originária de uma tradição cultural oral e visual, a LSKB não utiliza alfabeto manual (datilologia), expressando diretamente os conceitos por meio de sinais icônicos e arbitrários complexos;
- Estrutura Sintática e Classificadores: A língua apresenta ordem sintática predominante do tipo Objeto-Sujeito-Verbo (OSV) ou Objeto-Verbo-Sujeito (OVS), além de um rico repertório de classificadores espaciais que descrevem a morfologia dos animais da floresta, armas tradicionais (como arcos e flechas), recipientes e a dinâmica do relevo.
Pesquisas Etnográficas e Linguísticas Pioneiras
A relevância cultural e científica do povo Ka'apor atraiu grandes pesquisadores brasileiros e internacionais:
• Darcy Ribeiro (1949-1951): Entre 1949 e 1951, o renomado antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro realizou duas expedições de longa duração às aldeias Ka'apor. As experiências foram registradas no documentário pioneiro "Os Índios Urubu : Um Dia na Vida de uma Tribo da Floresta Tropical" e na clássica obra "Diários Índios : Os Urubu-Ka'apor" (Companhia das Letras), que detalha a riqueza dos costumes, rituais e adornos de penas da etnia.
• Jim Kakumasu (1968): O linguista norte-americano Jim Kakumasu, do Summer Institute of Linguistics (SIL), publicou o primeiro estudo descritivo formal sobre a língua de sinais do grupo, intitulado "Urubu Sign Language", apresentando à comunidade científica internacional a complexidade estrutural dos sinais indígenas.
• Lucinda Ferreira Brito (1993/1995): A linguista brasileira Lucinda Ferreira Brito desenvolveu pesquisas fundamentais comparando a LSKB com a Libras urbana, ressaltando o valor inestimável da diversidade linguística dos povos originários do Brasil.
Preservação Cultural e Importância para o Brasil
A experiência do povo Ka'apor e de sua língua de sinais representa um patrimônio imaterial de valor incalculável para a história da humanidade e para a linguística brasileira. Assim como em Martha's Vineyard, a comunidade Ka'apor demonstra que a plena inclusão e a convivência fraterna são alcançadas quando a língua de sinais é acolhida e praticada como bem comum por toda a sociedade.



















