Pedro Bial - o repórter que perdeu parte da audição na guerra
Pedro Bial é um dos jornalistas e apresentadores mais conhecidos da televisão brasileira: foi correspondente internacional da Globo, apresentou o Big Brother Brasil por 16 edições e comanda o talk show Conversa com Bial. O que muitos telespectadores não sabem é que, desde 1994, Bial convive com perda auditiva no ouvido direito, sequela de uma bomba que explodiu perto dele durante a cobertura da guerra da Bósnia, em Sarajevo.
Nascido em 29 de março de 1958, no Rio de Janeiro, filho de pais alemães que vieram para o Brasil após a ascensão de Hitler, Bial perdeu o pai aos 14 anos e formou-se em Comunicação Social pela PUC-Rio em 1980. Entrou na Globo em 1981, por um curso de formação em telejornalismo, e aprendeu o ofício na ilha de edição antes de ir para a rua como repórter.
Correspondente de guerra
Em agosto de 1988, Bial assumiu o posto de correspondente da Globo em Londres, onde ficou por oito anos, período que ele define como "os melhores anos da minha vida profissional". Dali, cobriu alguns dos maiores acontecimentos do fim do século XX: a queda do Muro de Berlim (1989), a reunificação da Alemanha (1990), a Guerra do Golfo (1991), o fim da União Soviética (1991) e a guerra da Bósnia (a partir de 1992).
Foi nessa última cobertura que a audição dele mudou para sempre. Em 1994, Bial passou vinte dias em Sarajevo, a capital sitiada da Bósnia. No livro "Correspondentes", do projeto Memória Globo, ele conta o momento exato: "Estávamos gravando uma entrevista, eu estava no contraplano, o cara estava falando, e caiu a bomba. O cinegrafista estava focado em mim bem nessa hora. E ali eu perdi os graves e os agudos do ouvido direito e fiquei, por assim dizer, meio surdo".
O cenário invertido do Conversa com Bial
A perda auditiva acompanha o apresentador desde então, e teve até consequência cenográfica. Ao lançar o Conversa com Bial, em 2017, ele explicou por que o cenário do programa é invertido em relação aos talk shows tradicionais (onde o convidado senta à esquerda do apresentador): "Eu tenho um problema no ouvido direito. Uma bomba caiu perto de mim quando eu estava trabalhando como repórter em Sarajevo e eu perdi a capacidade de ouvir graves e agudos". Com os convidados à sua esquerda, o ouvido bom fica voltado para a conversa.
É um exemplo simples e poderoso de acessibilidade aplicada: em vez de esconder a limitação, Bial adaptou o ambiente de trabalho a ela, diante de todo o Brasil.
Do Fantástico ao Big Brother Brasil
De volta ao Brasil em 1996, Bial apresentou o Fantástico ao lado de Fátima Bernardes e cobriu Copas do Mundo e Olimpíadas. Em 2002, assumiu o comando do Big Brother Brasil, que apresentou por 16 edições, tornando-se uma das faces mais reconhecíveis da TV brasileira. Criou e apresentou o programa de entrevistas Na Moral (2012-2014) e, desde maio de 2017, comanda o Conversa com Bial, nas madrugadas da Globo.
Também escritor e documentarista, Bial construiu uma carreira que ele mesmo se recusa a hierarquizar: "Não vejo mais nobreza em ser correspondente de guerra do que na apresentação de um show ligeiro. Se for bem feito, é nobre. Encarei tudo na vida como missão profissional".
Perda auditiva por trauma acústico
O caso de Pedro Bial ilustra o chamado trauma acústico: a exposição a um ruído extremo e súbito, como uma explosão, pode danificar de forma permanente as células do ouvido interno, levando à perda de faixas de frequência (no caso dele, graves e agudos de um lado).
A história de Bial mostra que a perda auditiva não escolhe profissão nem biografia, e que ela não precisa interromper uma carreira: com uma adaptação de cenário e transparência sobre a própria condição, ele segue há décadas fazendo o que faz de melhor, ouvir e contar boas histórias.
