Julia Brace

Julia Brace - a primeira pessoa surdocega dos Estados Unidos a receber educação formal

Retrato de Julia BraceJulia Brace. By Unknown author - https://live.staticflickr.com/3718/13386930125_39a10d2a64_k.jpg, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=108011164

Julia Brace foi a primeira pessoa surdocega da história dos Estados Unidos a receber instrução formal, décadas antes de Helen Keller se tornar mundialmente conhecida. Sua trajetória, no início do século 19, abriu caminho para a educação de pessoas surdocegas no país: foi justamente ao visitar Julia, já adulta, que o educador Samuel Gridley Howe teve a ideia de desenvolver o método que, pouco depois, usaria para educar Laura Bridgman, considerada por muito tempo a "primeira" surdocega educada nos EUA, quando na verdade Julia veio antes.

Julia Brace nasceu em 13 de junho de 1807, em uma área do condado de Hartford, em Connecticut, filha de um sapateiro de família pobre. Antes de adoecer, ela já frequentava a escola e sabia ler e soletrar palavras de duas sílabas. Por volta dos 5 anos de idade, contraiu febre tifoide, doença que a deixou simultaneamente surda e cega.

Anos sem educação, até o Asilo de Hartford

Depois de perder a visão e a audição, Julia passou anos sem qualquer tentativa de instrução formal. A mudança só veio aos 18 anos, quando foi admitida, em 11 de junho de 1825, na Hartford Asylum for the Deaf and Dumb, hoje conhecida como American School for the Deaf, a primeira escola permanente para surdos das Américas, fundada por Thomas Hopkins Gallaudet, o médico Mason Fitch Cogswell e outros cidadãos de Hartford, inspirados no método do abade francês Sicard.

Na escola, Julia aprendeu a se comunicar por meio de sinais táteis e desenvolveu habilidades práticas, como costura e tricô, que a tornaram autossuficiente. Sua história ganhou notoriedade pública ainda nos anos 1830, especialmente depois de textos da escritora Lydia Sigourney publicados na revista infantil "Juvenile Miscellany", em 1828, que a transformaram em uma espécie de celebridade educacional da época.

O encontro que mudou a história da educação de surdocegos

A visibilidade de Julia atraiu a atenção de Samuel Gridley Howe, diretor da Perkins Institution, em Massachusetts. Ao conhecê-la no asilo de Hartford, Howe vislumbrou um método sistemático para educar pessoas surdocegas e passou a colocá-lo em prática com outros alunos, entre eles Laura Bridgman e Oliver Caswell. Em 6 de abril de 1842, a própria Julia chegou a ser levada à Perkins Institution, fechando um círculo simbólico: a pioneira que inspirou o método acabou também beneficiada por ele, ainda que décadas depois de seu primeiro contato com a educação.

Julia viveu seus últimos anos na casa da irmã, em Bloomfield, Connecticut, onde morreu em 12 de agosto de 1884.

Por que Julia Brace precisa ser lembrada

A história registrou poucos nomes de pessoas surdocegas, e a ofuscação da trajetória de Julia Brace pela fama posterior de Laura Bridgman e, sobretudo, de Helen Keller, é um exemplo clássico de como a história tende a lembrar apenas do nome mais divulgado, não do pioneiro.

Resgatar a história de Julia Brace é reconhecer que, antes de qualquer nome famoso, uma menina pobre de Connecticut, cega e surda desde os 5 anos, já provava que pessoas surdocegas podiam aprender, se comunicar e viver com autonomia, desde que tivessem acesso à educação adequada.

Referências:

  1. START ASL. Famous Deafblind: Julia Brace, Laura Bridgman, and Helen Keller. Disponível em: <https://www.startasl.com/famous-deaf-blind-julia-brace-laura-bridgman-and-helen-keller/>. Acesso em: 13 Jul. 2026
  2. ELEANOR WAIT. Julia Brace. Disponível em: <https://www.dartmouth.edu/library/Library_Bulletin/Nov1992/LB-N92-Wait.html>. Acesso em: 13 Jul. 2026.
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