I. King Jordan - o primeiro reitor surdo da Gallaudet e o rosto da revolução "Deaf President Now"
Irving King Jordan entrou para a história em 1988, ao se tornar o primeiro presidente surdo da Gallaudet University, a única universidade do mundo inteiramente voltada para estudantes surdos, fundada em 1864. Sua nomeação não foi um gesto espontâneo da instituição: foi conquistada pelo movimento estudantil "Deaf President Now", uma semana de protestos que se tornou o marco do ativismo surdo mundial. Da vitória saiu também a frase que virou lema de gerações: "Pessoas surdas podem fazer tudo o que os ouvintes fazem, exceto ouvir".
Jordan nasceu em Glen Riddle, cidadezinha da Pensilvânia perto da Filadélfia, e cresceu ouvinte. Depois do ensino médio, serviu quatro anos na Marinha americana. Aos 21 anos, um grave acidente de trânsito o deixou profundamente surdo, virando sua vida do avesso e o levando, como estudante surdo, à Gallaudet.
Do aluno ao reitor: uma carreira construída dentro da Gallaudet
Jordan formou-se em Psicologia pela Gallaudet em 1970 e seguiu para a Universidade do Tennessee, onde fez mestrado (1971) e doutorado (1973), ambos em Psicologia. Voltou então para a Gallaudet como professor do Departamento de Psicologia, assumiu a chefia do departamento em 1983 e, três anos depois, o decanato da Faculdade de Artes e Ciências. Ao longo da carreira, foi ainda pesquisador e professor visitante na Escócia, na Polônia e na França.
Deaf President Now: a semana que mudou tudo
Em março de 1988, o conselho da Gallaudet precisava escolher um novo presidente entre três finalistas, e escolheu a única candidata ouvinte. A reação foi imediata: estudantes fecharam o campus, com apoio de ex-alunos, professores e funcionários, exigindo um presidente surdo em uma universidade de surdos. O protesto, batizado de Deaf President Now (DPN, "Presidente Surdo Já"), durou uma semana, ocupou os noticiários do mundo e terminou em vitória completa: o conselho voltou atrás e nomeou I. King Jordan, um dos finalistas, o oitavo presidente da instituição, o primeiro surdo em 124 anos de história.
Na coletiva de imprensa após a nomeação, um repórter perguntou se ele realmente acreditava que a surdez não era um obstáculo para o sucesso. A resposta virou bandeira: "Pessoas surdas podem fazer tudo o que as pessoas ouvintes fazem, exceto ouvir". A frase, datada de março de 1988, correu o mundo e até hoje estampa instituições ligadas à surdez.
Dezoito anos de presidência e um legado mundial
Jordan presidiu a Gallaudet por 18 anos, até 31 de dezembro de 2006, período em que se tornou porta-voz internacional das pessoas surdas e elevou o prestígio da universidade. Colecionou 11 títulos honorários e prêmios como a Medalha Presidencial do Cidadão; em 1990, foi nomeado pelo presidente George H. W. Bush como vice-presidente do Comitê Nacional para o Emprego de Pessoas com Deficiência, em um período marcado pela aprovação, nos Estados Unidos, da importante Lei dos Americanos com Deficiência (ADA). Anos mais tarde, em 2010, foi nomeado pelo presidente Barack Obama para integrar a Comissão de Bolsistas Presidenciais.
O DPN que levou I. King Jordan ao cargo ecoou no mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde inspirou o movimento surdo nas lutas que levariam ao reconhecimento da Libras em 2002. A lição do episódio permanece atual: representatividade não se pede, se conquista.
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