Annie Jump Cannon - a astrônoma surda que organizou as estrelas do céu
Annie Jump Cannon. Por New York World-Telegram and the Sun Newspaper - http://www.britannica.com/EBchecked/topic/92776/Annie-Jump-Cannon, Dominio publico, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9431030Annie Jump Cannon foi a astrônoma que criou o sistema de classificação das estrelas usado pela ciência até hoje. Surda desde a juventude por causa de uma escarlatina, ela catalogou cerca de 350 mil estrelas a olho e à mão, mais do que qualquer outra pessoa na história, e ganhou o apelido de "recenseadora do céu". Em uma época em que Harvard resistia a reconhecê-la por ser mulher e surda, ela se tornou a primeira mulher a receber um doutorado honorário da Universidade de Oxford.
Annie nasceu em 11 de dezembro de 1863, em Dover, no estado americano de Delaware, filha mais velha de Wilson Cannon, construtor naval e senador estadual, e de Mary Jump, que lhe ensinou as constelações ainda na infância. Estudou física e astronomia no Wellesley College, uma das poucas portas abertas às mulheres na ciência da época, formando-se em 1884.
A escarlatina e a surdez
Foi nos anos seguintes à faculdade que Annie contraiu escarlatina, a doença que a deixou profundamente surda por volta dos 30 anos de idade. Para se comunicar, passou a depender principalmente da leitura labial. Em vez de afastá-la da ciência, a surdez acabou associada, por seus biógrafos, à extraordinária capacidade de concentração visual que marcou seu trabalho: classificar espectros de estrelas exigia exatamente o tipo de atenção minuciosa e silenciosa em que ela era imbatível.
Após a morte da mãe, em 1894, Annie foi trabalhar no Observatório de Harvard como assistente do diretor Edward Pickering, integrando o grupo de mulheres calculadoras que ficou conhecido como "as mulheres de Pickering", responsáveis por catalogar estrelas para o grande Catálogo Henry Draper.
O, B, A, F, G, K, M: o alfabeto das estrelas
Foi ali que Annie desenvolveu sua obra máxima: o sistema de classificação espectral que ordena as estrelas pelas letras O, B, A, F, G, K e M, conforme sua temperatura. O método, conhecido como Sistema de Harvard, era tão superior aos anteriores que a União Astronômica Internacional o adotou oficialmente em 1922, e ele continua em uso até hoje, com ajustes mínimos. Gerações de estudantes de astronomia o memorizam pela frase "Oh, Be A Fine Girl, Kiss Me".
Trabalhando em ritmo lendário, chegando a classificar milhares de estrelas por mês, Annie catalogou cerca de 350 mil astros ao longo da carreira, além de descobrir 300 estrelas variáveis e cinco novas. Sua velocidade e precisão permitiram que os astrônomos mapeassem a Via Láctea e estudassem a estrutura da galáxia.
Reconhecimento tardio, legado eterno
As honrarias vieram, ainda que a passos lentos. Em 1914, a Royal Astronomical Society britânica a elegeu membro honorário. Em 1924, Oxford lhe concedeu o doutorado honorário inédito para uma mulher. Em 1931, a Academia Nacional de Ciências dos EUA lhe deu a Medalha Draper, uma das maiores honras da astronomia. O reconhecimento formal de Harvard, porém, só veio três anos antes de sua morte, atraso que seus biógrafos atribuem ao duplo preconceito da instituição: ela era mulher e era surda. Annie morreu em 13 de abril de 1941. Hoje, um asteroide e uma cratera lunar levam seu nome.
Por que Annie Jump Cannon inspira a comunidade surda
A história de Annie Jump Cannon é lembrada pela comunidade surda como um exemplo de que a surdez não limita a capacidade intelectual: em um mundo científico que a subestimava duplamente, ela criou nada menos que a linguagem com que a humanidade classifica as estrelas.