Shirley Vilhalva - a pesquisadora surda dos indígenas surdos do Brasil
Shirley Vilhalva é uma pesquisadora, escritora e professora surda brasileira que abriu um campo de estudo praticamente invisível até ela: as línguas de sinais emergentes das comunidades indígenas. Professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), autora do livro autobiográfico Despertar do Silêncio, ela dedicou décadas à educação de surdos em Mato Grosso do Sul, dos surdos das cidades aos indígenas surdos das aldeias.
Sua trajetória une três papéis raros de encontrar numa mesma pessoa: a militante histórica do movimento surdo, a educadora de carreira e a cientista que documenta línguas que ninguém havia registrado.
Uma infância sem língua de sinais
Shirley nasceu em 1964 e, ainda criança, foi diagnosticada com surdez neurossensorial severa bilateral. Cresceu desenvolvendo leitura labial, num tempo em que a língua de sinais não chegava às crianças surdas: experimentou o primeiro aparelho auditivo aos 12 anos, abandonou-o em quinze dias e só voltou a usá-lo oito anos depois.
A Língua de Sinais veio tardiamente, já na vida adulta, e ela descreve o encontro com a comunidade surda como um renascimento. A barreira linguística com o português cobrou seu preço: Shirley prestou vestibular várias vezes até ser aprovada. Na graduação em Pedagogia, conquistou bolsa e passou a desenvolver projetos de ensino e divulgação da língua de sinais.
Educadora e militante em Mato Grosso do Sul
A vida profissional de Shirley se confunde com a história da educação de surdos em Mato Grosso do Sul, à qual dedicou mais de 35 anos. Atuou como professora e diretora do CEADA, a escola estadual de surdos de Campo Grande, e como professora no CAS/MS, sendo apontada como uma das responsáveis pela introdução da língua de sinais no contexto educacional do estado. Em 2000, recebeu medalha do projeto O Mestre que Marcou a Minha Vida.
Na militância, foram 25 anos como voluntária na FENEIS, a federação nacional dos surdos, além do voluntariado na associação de surdos de MS e de assentos em conselhos como o CONADE. Ela também participou do histórico Pré-Congresso de Porto Alegre, em 1999, que produziu o documento A Educação que Nós Surdos Queremos, um marco do movimento surdo brasileiro.
As línguas de sinais das aldeias
Foi depois da graduação, ao visitar uma aldeia e saber da existência de um indígena surdo, que Shirley encontrou sua grande questão de pesquisa: como se comunicam os surdos das comunidades indígenas, distantes da Libras das cidades? A pergunta virou ciência no mestrado em Linguística na UFSC, concluído em 2009 sob orientação de Ronice Müller de Quadros, com a dissertação Mapeamento das Línguas de Sinais Emergentes: um estudo sobre as comunidades linguísticas indígenas de Mato Grosso do Sul.
A pesquisa de campo percorreu escolas indígenas de Dourados, com apoio de lideranças locais, e documentou os sinais que emergem nas aldeias onde vivem indígenas surdos. Shirley seguiu aprofundando o tema no doutorado em Linguística Aplicada na Unicamp e continua publicando sobre educação de indígenas surdos e direito linguístico, além de ter passado pelo próprio curso Letras-Libras da UFSC, onde atuou como professora e tutora.
Despertar do Silêncio
Em 2004, a Editora Arara Azul publicou Despertar do Silêncio, autobiografia em que Shirley narra a infância sem língua de sinais, a escola, o vestibular, a maternidade e o renascer na comunidade surda, um retrato fiel do lema "Nada sobre nós, sem nós". O livro está disponível gratuitamente em PDF no site da editora e virou objeto de estudos acadêmicos sobre a autorrepresentação das pessoas surdas.
Entre as cenas marcantes está a do parto da filha: Shirley conquistou o direito a uma intérprete de Libras na sala de parto e depois produziu vídeo educativo sobre cesariana para outras mães surdas. Da sala de parto à sala de aula das aldeias, a vida de Shirley Vilhalva é a prova de que garantir a língua é garantir dignidade, e de que a comunidade surda brasileira é maior e mais diversa do que se costuma imaginar.
