Muitos dos mitos que cercam as línguas de sinais e as pessoas surdas têm origem na desinformação histórica e no desconhecimento sobre a linguística e a cultura surda. Tais equívocos criam barreiras atitudinais, prejudicam o desenvolvimento infantil e desvalorizam o trabalho de educadores e tradutores. Neste artigo, desmistificamos os principais mitos sobre a Libras, as línguas de sinais e a comunidade surda.
Mito 1: A Libras é apenas mímica ou pantomima?
Verdade: A Libras é uma língua natural completa, com gramática própria e altamente estruturada.
A mímica é uma representação teatral e gestual livre, utilizada para imitar objetos ou situações sem regras gramaticais fixas. A Língua Brasileira de Sinais (Libras), por sua vez, é um sistema linguístico de modalidade visual-motora reconhecido cientificamente pela Linguística.
Embora existam sinais que guardam alguma semelhança visual com o objeto ou ação que representam (chamados de sinais icônicos, comparáveis às onomatopeias nas línguas orais), a imensa maioria dos sinais é arbitrária. A Libras possui regras fonológicas, morfológicas, sintáticas e semânticas complexas, capazes de expressar qualquer conceito humano.
Crianças brincando de mímica e o sinal específico para 'pulga' em Libras. Fonte: Blog Deise Vitória e Blog Amanda DudaMito 2: A língua de sinais é limitada e expressa apenas conversas simples?
Verdade: As línguas de sinais possuem riqueza expressiva ilimitada, permitindo a abordagem de qualquer nível de abstração.
Com a língua de sinais é perfeitamente possível produzir conferências científicas, defender teses de doutorado, debater temas jurídicos, médicos e filosóficos, além de compor poemas visuais, metáforas, peças teatrais, humor e ricas narrativas literárias.
Música em Libras - Aquarela, Toquinho
Mito 3: A Libras é uma linguagem e não uma língua?
Verdade: A Libras é uma língua em seu sentido pleno e científico.
Na ciência linguística, o termo "linguagem" refere-se à capacidade humana universal de comunicar ideias por meio de signos (incluindo a música, a pintura e a dança). Já o termo "língua" designa um idioma específico, estruturado e compartilhado por uma comunidade linguística.
Assim como dizemos "língua portuguesa" (e não linguagem portuguesa), o termo correto é Língua Brasileira de Sinais (Libras). Esse estatuto é expressamente consagrado na Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002.
Saiba mais sobre esse tema em nosso artigo especial:
Mito 4: A Libras é apenas o português sinalizado com as mãos?
Verdade: A Libras possui sintaxe, morfologia e estrutura independente da língua portuguesa.
A Libras não consiste na substituição de cada palavra em português por um sinal correspondente. A língua de sinais possui mecanismos sintáticos próprios, utilizando a organização por Tópico-Comentário, classificadores espaciais e concordância direcional no espaço.
Quando alguém tenta falar português e sinalizar ao mesmo tempo, ocorre o chamado "português sinalizado" (ou bimodalismo), que não representa a estrutura autêntica e natural da Libras.
Mito 5: A língua de sinais é universal e igual no mundo todo?
Verdade: Cada país possui sua própria língua de sinais, desenvolvida pela sua comunidade surda local.
Assim como os ouvintes de diferentes países falam idiomas distintos (português, inglês, francês, japonês), as pessoas surdas em cada nação utilizam línguas de sinais próprias com vocabulário e gramática específicos. Nos Estados Unidos utiliza-se a ASL (American Sign Language); na França, a LSF (Langue des Signes Française); em Portugal, a LGP (Língua Gestual Portuguesa).
O catálogo internacional Ethnologue documenta centenas de línguas de sinais vivas pelo mundo. Para eventos internacionais (como os Jogos Surdolímpicos ou congressos da WFD), utiliza-se o Sistema de Sinais Internacionais (SSI), que funciona como um recurso de contato internacional, mas não substitui as línguas de sinais naturais de cada país.
Língua de sinais é igual no mundo todo? DuoLibras com Manolo Torres
Mito 6: A língua de sinais é apenas o Alfabeto Manual?
Verdade: O alfabeto manual é apenas um recurso ortográfico de apoio, não a totalidade da língua.
O Alfabeto Manual (datilologia) é o empréstimo das letras do alfabeto da língua oral para soletrar nomes de pessoas, cidades ou termos técnicos que ainda não possuem um sinal convencionado. A Libras em si é composta por milhares de sinais com significados diretos.
Mito 7: Qualquer pessoa que aprendeu sinais básicos pode ser intérprete?
Verdade: A atuação como Tradutor e Intérprete de Libras exige formação técnica, acadêmica e ética rigorosa.
A profissão de Tradutor, Intérprete e Guia-Intérprete de Libras é regulamentada pelas leis federais nº 12.319/2010 e nº 14.704/2023. Realizar a mediação em audiências judiciais, consultas médicas ou salas de aula universitárias exige profundo domínio tradutório, agilidade cognitiva e responsabilidade ética para garantir a exatidão das mensagens.
Mito 8: Todo surdo é "mudo"?
Verdade: O termo "surdo-mudo" é incorreto, ultrapassado e clinicamente inadequado.
A grande maioria das pessoas surdas tem o aparelho fonador e as cordas vocais em perfeito estado anatômico. A razão pela qual muitos surdos não utilizam a fala oral é simplesmente porque, devido à perda auditiva, não tiveram o retorno auditivo natural para monitorar a voz. Aqueles que passam por terapia fonoaudiológica podem se tornar surdos oralizados.
A comunidade surda rejeita a expressão "surdo-mudo", adotando com orgulho o termo Surdo ou Pessoa Surda.
Será que TODO SURDO é MUDO?
Mito 9: Todo surdo nasce sabendo ou usa língua de sinais?
Verdade: A língua de sinais precisa ser aprendida e adquirida no convívio social.
Como mais de 90% das crianças surdas nascem em famílias com pais ouvintes, muitas não têm contato imediato com a Libras na infância. Algumas pessoas utilizam próteses auditivas, implantes cocleares ou comunicação oral, vindo a aprender a Libras mais tarde em escolas bilíngues ou em associações de surdos.
Mito 10: Todos os surdos conseguem fazer leitura labial perfeita?
Verdade: A leitura labial (orofacial) é complexa e decodifica apenas uma fração parcial das palavras.
Estudos indicam que apenas cerca de 30% a 40% dos sons da fala são claramente distinguíveis apenas pelo movimento dos lábios, pois muitos fonemas são produzidos no interior da cavidade oral ou na garganta (como /k/, /g/, /r/). Bigodes, distância física, iluminação fraca e pronúncia rápida dificultam ainda mais a leitura labial, não devendo ser encarada como substituta da acessibilidade em Libras.
Todos os surdos sabem ler os lábios? | Libras • Léo Viturinno
Será que todos os surdos sabem ler os lábios, ou seja, fazem leitura labial? Aqui vou responder isso... Venham assistir!
Exercícios de Fixação
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